Sua voz saía suave e seu sorriso era agradável. Não reconhecia mais os olhos inflamados de raiva que vira da última vez. Voltara a ser ela. Mesmo que por um instante, ele a reconhecia. Fora bem tratado, portanto, assim retribuía. Queria tocar o seu braço, como antes fazia, mas receava um desentendimento. Apenas a observou partir. Até mesmo sem a encarar, sentia a calma que dela emanava, sempre com o seu costumeiro ar de superioridade. Não a via assim desde seu reencontro. O que aconteceu para estarem tão distantes? E por que se sentiram tão conectados naquele instante? Aproximaram-se sem relutância. Ela sentia falta, mas não demonstrava. Ele era, por vezes, grosseiro. Não sabia disfarçar, mas não se renderia, seu orgulho era muito superior a isso. Ele desejava saber o que se passava, o que ela sentia e pensava, mas era impossível. Pensava nela a cada ironia, a cada olhar que lhe era dirigido. Já começava a atrapalhar. Talvez por esse motivo, talvez não, seu humor amanhecia já amargo. Suas palavras chegavam afiadas. E ela só piorava a situação. “Quem desdenha quer comprar…” dissera uma vez a ela. “Imagina então, quero muito te comprar!” esvaindo em gargalhadas, a fala ecoa. Ela dizia querendo dizer e ele sabia da verdadeira intenção. Ficaria feliz se assim fosse. Não diria o mesmo em atuais circunstâncias. Já não permite tanta aproximação, mantém-na longe. E ela, com muito grado, faz. Quando seus olhares se encontram, ela curva seus lábios, imperceptivelmente, num sorriso debochado em resposta a seu olhar indiferente. Era como se seus sorrisos, suas ironias, e até mesmo suas decepções, dissessem: ‘eu sei que te fiz bem, pelo menos um dia. Importei-me contigo, estive ao teu lado. E como o ditado diz: nada que é bom dura para sempre. Errei ao acabar dessa maneira. Não me preocupo de continuar nesta condição. Só não me olhe como se nunca tivesse sorrido para mim, ou por minha causa!’ Enfim, seus olhares diziam tudo que suas palavras não verbalizavam. E ainda continuavam misteriosos. Intransponíveis. Mas agora, o calor vinha do seu olhar travesso e provocante, do sorriso radiante, uma combinação que o arrepiava por inteiro. Ela, naquele instante, era a que conhecera, e não a que se tornara depois. Ela era quem o fazia sorrir. E ela o fez sorrir quando partiu.
"Conte-me e eu vou esquecer. Mostre-me e eu vou lembrar. Envolva-me, e eu vou entender." Confúcio
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Quem sou eu

- Maria Paula
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- Let me out Don't tell me everything Start it out Like any other day Must have gave the wrong impression Don't you understand where I belong? Well I'm not the one (Carry me home - The Killers)
quarta-feira, 6 de junho de 2012
domingo, 3 de junho de 2012
Contigo ao meu lado, sei no que acreditar
O que seria isso que nunca sentira antes? Antes, era tudo tão simplório, agia indiferentemente. Mas agora algo mudou. E era possível, claramente, perceber. “E se…” “E se nada, garoto. Não coloque ideias nesta cabecinha, se sabes que não terás retorno.” Ela era fria demais, mesmo não sendo. “Tu estás diferente”, um dia ele lhe dissera. Realmente, ela estava diferente. Algo, no seu âmago, indicara isso. O que tanto reprimia acabara por transbordar. “Imaginação. Estou mais sorridente, se é isso que me dizes.” Ele a encarava, e por vezes sorria. Um mistério para ele, a mais pura lógica para ela. Estaria ele tentando ignorar? O que estaria buscando? Uma confirmação verdadeira, incontestável. Devia ela, agora, provar-lhe. “Não sabia que gostava de mim… Não assim, pelo menos.” Ele a provocava como o gato que brinca com o novelo antes de desenrolá-lo. “Nunca disse o contrário.” “E por que não me disseste nas vezes que te perguntei?” “Não encontrava palavras para dizê-lo.” Assim se silenciavam. “Por favor, não me entenda errado.” ela suplicava. Sem dizer, ele apenas sorria-lhe. As horas passavam, e se arrastavam quando estavam juntos. “Acho incrível como as pessoas mudam quando estão com outras, não é?” ela, indiferente, comentava. “Por que dizes isso?” Desvencilhando-se do abraço que a envolvia, olha-o com os olhos de pura malícia. “Foi só um comentário, não precisa te acanhar.” Beijando a sua bochecha, ela recosta a face sobre seu ombro. Ele pode ser o gato às vezes, mas nunca deixará de ser o seu novelo. Inquieto, ele tamborilava seus dedos na perna dela. “Eu sei que mudo quando estou com outras pessoas.” ele disse. “Nem te preocupes com o meu comentário. Isso é natural. Entendo que o jeito que tu ages comigo é diferente do jeito que tu ages com o teu melhor amigo, ou melhor amiga.” Ele sentiu uma pontada quando ela dissera ‘melhor amiga’, mas não sabia explicar o que era. Mas no fim, acabou entendendo. “Estás com ciúme de alguém?” “Eu?” perguntou ela, rindo timidamente. Ele nada disse, apenas esperou por resposta. Persistindo o silêncio, ela resolveu se pronunciar. “Ok, estou com ciúme sim. Sei que há tempos ela é a tua amiga. Melhor amiga. Vocês estão sempre juntos, e agora que percebi que gosto de ti, sinto medo de perder-te.” “Não precisas te preocupar com isso, anjo. Somos só amigos, e, além disso, não faço o tipo dela.” Ele beijou-a de leve, vendo-a enrubescer. “Estou contigo e só contigo.” “Fazer o quê? Sinto saudade, sinto ciúme, já não posso mais controlar.” Dizia ela, envergonhada. “Não sabia que tu sentias ciúme, parecia tão indiferente quanto a isso…” “Não costumo sentir, e é quando eu sinto que me preocupo.” “Terei de me certificar de que não sintas…” Ele disse, beijando-a outra vez. “Minha menina ciumenta, não quero que essa ideia atormente-a novamente. Não suportarei ver esta tua boca curvar-se por essa preocupação infundada, ouviu-me?” Sem responder-lhe, ela acena a cabeça. “Então, assim serei teu, e tu serás minha!” Suas mãos se encaixaram, e a segurança de se terem tomou-lhes calmamente.