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Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brazil
Let me out Don't tell me everything Start it out Like any other day Must have gave the wrong impression Don't you understand where I belong? Well I'm not the one (Carry me home - The Killers)

sábado, 26 de maio de 2012

Nos meus sonhos

Chegou em casa, largou suas coisas por cima da cama. Estava cansado, mas o sorriso estampado em seu rosto o fazia esquecer. Por que estivera, ultimamente, tão animado? Faminto, passara a manhã inteira de jejum. Comeu algumas frutas que encontrou pela frente, e não parava de pensar sobre. Seria perigoso levar à diante? Demais. Conseguiria controlar-se? Impossível. Precisava de uma solução.  Estava, aos poucos, entregando-se ao vício. O telefone permanecia sobre a mesa. Esperava receber uma ligação, mas sabia que não receberia. Procurou algo para se ocupar. Não encontrava mais nada. Resolvera organizar os papéis que tinha jogado aos cantos. Quantas memórias aquelas folhas traziam... A saudade apertava o seu peito. Por fim, encontrara o papel que mais lhe prendeu a atenção. Era uma carta dela. Suas palavras, tão doces, o emocionava. Queria tê-la por perto. Precisava dela. Será que ela também precisava? Enquanto lia as muitas linhas que lhe foram destinadas, algumas lágrimas rolavam pela face. Seriam lágrimas de tristeza? Certamente não. Seriam de saudade, de desejo. As suas cartas, os seus bilhetes eram intrigantes. Ela, e só ela, tinha a habilidade de envolver o leitor. Resolvera ligar. Seu coração palpitava, emocionado, enquanto aguardava resposta. Finalmente, ouve-se o 'alô'. O que dizer? "Sabe, tenho identificador de chamadas, e sei bem que é... Afinal, ia ligar-te. Já estava com saudade." a voz meiga dizia-lhe. "Por que hesitou, então?" perguntou-a. "Estive ocupada, desculpe. Não pense que me esqueci. Ao contrário! Lembro-me a cada instante!" Ouvir tais palavras o confortou. Talvez ela realmente precisasse dele.      "Ligou-me para ouvir a minha voz? Que romântico! Apaixono-me mais e mais!" disse, soltando uma risada melódica. "Liguei para dizer que já não penso em mais nada..." sussurrou-lhe, em resposta. "Confesso que nem eu. Passo o dia pensando em nós, em como queria estar ao teu lado. Nos nossos encontros, sussurro às estrelas, peço que te façam ficar por mais um tempo." Fez-se silêncio. Ela, então, retomou: "Eu tenho rido mais, sabia? Tenho estado menos estressada... E todos perguntam pelo motivo de minha euforia. Não os respondo, já não é da conta deles...”. Conversaram por mais um pouco, mas eles tiveram de desligar. As palavras da moça ficaram ecoando em sua mente, a euforia crescia dentro de si. Já não havia mais motivo para deixar de pensar nela. À noite, quando ia deitar-se, pensou nos belos olhos castanhos, no sorriso travesso, nas curvas harmônicas,  na voz suave que o fazia delirar. Pensou nela e sussurrou "Eu te amo". Em resposta, a moça visitou os seus sonhos.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Em meio às nossas ausências, amo-te.

O sorriso iluminava os seus olhos. Ela, com o seu jeitinho mais irônico, encarava-me inocentemente maliciosa. Mas ambos estávamos ali, podíamos sentir. “Pergunte-me agora como sinto e não te responderei com palavras.” murmurou ela. “As palavras se fazem vazias quando dirigidas a ti.” em resposta eu dizia-lhe. E por algum tempo, as tardes se resumiam a isso, somente pela presença agradabilíssima daquela mulher tão gloriosa. Ríamos, conversávamos. Via que minha presença era tão deleitosa quanto a dela me era. Mas havia algo diferente, algo de extrema importância, imperceptivelmente agonizante. Perguntava-lhe o que havia, mas com uma resposta seca e ríspida, calava-me de imediato. A ironia intrínseca tornava-a a mais divina dos anjos. Cansado de preocupar-me à toa com esta mulher, passei a encontrá-la com pouca frequência. “Abandonaste-me, Miguel?” perguntou-me ela, assim que me viu aproximar. Não há palavras que expliquem, ou que ao menos tentem, o que se passara na minha cabeça. Talvez uma única expresse vagamente: indignação. “Talvez, Lorena.” “Ué, mas o que eu te fiz de tão grave? A ponto de privar-me da tua companhia? Esta é a pior das piores punições a mim já dadas!” Apesar da fala, sentia no olhar inquieto as mentiras em mim despejadas. “Diga-me o que eu te fiz! Para merecer essa tua atuação, essas palavras frias e insignificantes. Diga-me, eu pedirei perdão. E então pare, não precisarás mais fingir.” Lorena desviava o olhar, distante. De sua boca nada saía. “Digo-te que as tuas palavras foram cruéis. Mas não me é surpresa, estou acostumada há um tempo.” “Apenas responda-me, Lorena. Não sejas evasiva!” “Então deixe de ser um tolo e preste atenção ao teu redor, Miguel. Veja a harmonia da natureza. Cada elemento se complementa. E assim, formam um todo.” “Dizes, então, que não nos complementamos?” “Deixa de tolice, já te disse!” “Não entendo. Não posso assumir como motivo da tua frieza…” “Deixe-me terminar, então. Enfim, para um todo há a combinação da beleza única de cada. E antes que me interrompa, já que não posso ser poética, vou direto ao ponto: as minhas tardes faziam-se apenas da tua agradável companhia. Mas tu te tornaste um vício para mim, um vício que sustentava com prazer. E então, as tardes faziam-se do teu sorriso para o meu. Desculpe-me se lhe fui grosseira, ou fria, como disseste, mas não consegui sustentar este vício…” “Ainda não te entendo, mulher…” “No início, não me achava digna de qualquer sentimento por ti. Ao te comparar, comparo-te com um anjo, o meu anjo. Algo tão puro não deveria ser desviado do seu caminho divino.” “Esquece dessas insignificâncias…” já sentia cada célula do meu corpo clamando pelo seu calor. Perdoara aquela mulher que me provoca enlouquecidamente, que me tem preso aos seus pés, e vi suas asas ressurgirem de algum ponto além da escuridão dos seus caprichos. “Falta pouco, agora! Deixe-me terminar!” Lancei um sorriso tímido, e derreti-me quando retribuído tão calorosamente. “Enfim, imaginei que me evitaria, mas nunca deixei de vir aqui, onde sempre nos encontrávamos, na esperança de encontrar-te. Agora, admito, mesmo não digna, necessito. A tua luz é a única que me brilha, Miguel. O meu pensamento sempre está em teu. Já não posso ausentar-me e a melancolia me toma por inteira. Portanto, peço-lhe que me perdoe por tudo que te fiz que um dia te magoou, nunca foi a minha intenção! Se fores capaz de me perdoar, peço-lhe que me aceite para passar o resto dos meus dias ao teu lado!” Este último pedido me comoveu. Como podia recusar, vindo da mulher mais bela, da mulher que realmente amo? “Sejas, então, minha e só minha!”

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Muito além do desejo

O que estamos fazendo? Pelos Céus, isso está certo? Sorrio para ti, e o mesmo não se repete. O que houve para, de repente, estarmos tão pertos, e, no entanto, tão distantes? Essa, alguma vez, foi a nossa questão? Lucas estava atordoado, simplesmente não entendia. O sorriso, o olhar, todo o ser dela o seduzia, num fervor incessante. E, agora, não parava de se perguntar. O que se passa na nossa cabeça para desejarmos aquilo que tivemos e perdemos? Essa insistência é apenas desejo, ou nada menos do que paixão? Por que paixão, e não amor? Pudera amar alguém que o fez sangrar? Que o fez engolir o orgulho e realmente admitir que era com quem queria estar? E depois de tudo, some? São essas particularidades que o enlouquecem. ‘Por que me deixou esperando?’ perguntava ele a ela. ‘O que realmente queremos, e pelo que lutamos, sempre tem o seu valor. Se fosse algo fácil, tão simplório, será que tu saberias dar o devido valor?’ Lucas ficava silencioso, com a cabeça recostada no colo dela. Ela parecia olhar para algo que estava muito além do seu entendimento, enquanto acariciava e enrolava seus cachos de cabelo. ‘Por favor, não faças mais isso. Se fizeres, acho que morro!’ dizia ele. Diana paralisou por um instante. Seu olhar, sempre distante, encontrou o de Lucas. Calma e suavemente, ela dizia: ‘Não digas isso! Jamais! Por que morreria? Besteira!’ ‘Ora, por que. Por amor, óbvio. ’ ‘Tolo… Como se morre por amor? E se tu amas mais de uma vez? Se tu confundes o amor com qualquer outro sentimento? Vais morrer quantas vezes, então?’ sorria para ele. Lucas nada falava, aquela garota o colocava num transe de pensamentos. ‘Sabe, Lucas, não quero que tu sejas dependente de mim. Não faço o tipo grudenta. Gosto de ti, gosto de estar contigo. Mas eu tenho o meu espaço, assim como tu tens, e em hipótese alguma invadirei o teu, peço que não invada o meu. ’ Ele se preparava para contrapor, mas, tão somente com um olhar, Diana o impediu. ‘Não sou adepta ao sentimentalismo, mas isso não quer dizer que eu não sinta. Sinto até mais do que muitos românticos por aí… ’ ‘Mas, sinceramente, não parece. Não te vejo, nunca te vi demonstrar os teus sentimentos. ’ ‘Se eu não despejo para fora quer dizer que eu mantenho tudo aqui dentro, não é?’ Diana pressionou o peito de Lucas. ‘Imagina a confusão. ’ Lucas levantou-se para encarar Diana. ‘Não me faça a vilã, por favor.’ ‘Eu só não entendo. Por que acumula tudo? Por que estamos aqui, então?’ ‘Eu preciso do controle da minha situação, só isso.’ ‘Não podes ceder por uma vez?’ Diana, abatida, desviou o olhar, e Lucas, angustiado, levantou-se. ‘Quando te permitir ceder o controle, por ao menos uma vez, quem sabe…’ ‘As tuas palavras não fazem sentido.’ Ele, aos poucos, se afastou. ‘Mas eu te entendo, Lucas. E agora, que fique bem claro que foste tu quem partiu!’ E assim, as palavras de Diana ecoam em seus pensamentos a todo instante.

sábado, 12 de maio de 2012

Relato de um jornalista desanimado


Já no auge da industrialização, a pequena cidade de Essen - localizada na Renânia do Norte-Vestfália, região do Ruhr - enche seus pulmões com as cinzas jogadas aos ares. Esta nova situação de “progresso” tem afetado a população, embora que minimamente. As pequenas indústrias têm surgido em cada esquina das ruas, as pessoas perdem seus lugares para as revolucionárias máquinas. A agricultura cede espaço para a extração de carvão e produção de aço. Esta cidade outrora fora um pouco mais do que apenas um povoado cercado por campos cultivados e bosques. O que estamos fazendo? Vale a pena continuar sacrificando essa cidade, que já fora um lugarejo tão pacífico, tão diferente do que vemos pela janela hoje, pelo tão somente progresso? O progresso continua, enquanto somos esmagados pela sua força motriz. As famílias mais tradicionais têm se reunido para lutar contra esse desenvolvimento desenfreado, afirmam não concordar com as obras com que têm se deparado. Segundo Wilhelm Händel, essas obras estão devastando a cidade de Essen, tornando-a um espetáculo de cones cuspidores de poeira e cinza (como descrevera as pequenas indústrias). Para tentar reduzir o impacto da industrialização, as famílias protestarão contra as obras ainda essa semana. Antes, reunir-se-ão com o grupo responsável das construções. Quando indagado pelo motivo de sua insatisfação, Händel declara: “Não quero que meus filhos conheçam esta nova Essen. Quero que eles conheçam a em que eu cresci. Ou ao menos uma parte dela”. O maior receio daqueles que são contrários à industrialização é a total alteração da cidade e a falta de empregos, já que estas máquinas, um dia, ocuparão e farão o trabalho dos homens. “Não quero que os meus filhos, ou meus netos, cresçam numa cidade onde o sol não penetra as nuvens pela espessa poeira e cinzas. Nem que sejam privados de uma vida estável por não terem um emprego digno.”, manifesta Händel. O que se sabe do futuro desta pequena cidade ainda é um mistério. Mas por agora se tem certeza de que estão se reunindo para mudar esta situação, não ficarão estagnados diante esta circunstância. Sempre foram um pequeno povoado, e para longe disso não andarão.
Por Ricken Fuchs
07 de Julho de 1867, Essen, Alemanha.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

O meu sorriso a ti pertencerá

‘Os meus olhos já refletem o teu olhar. Diga-me, como consegues me prender assim? Fazes alguma bruxaria? Ou é apenas o teu brilho que me conquista? Vicia-me, tão suave e tão calmamente, neste teu sorriso. Agora um pôr-do-sol raia no meu horizonte. ’ Há quem diga que esta menina não é capaz de se sentir assim, afinal ela é fria e sem sentimento. Mas esses não conhecem a menina sobre quem falam. Ela é irônica e levemente adocicada. Importa-se com quem prova que merece algum reconhecimento, aqueles que ela, sem hesitar, defenderia arduamente. Por quem ela não desistiria. E por aqueles que a acompanham há tempo, ela iria ao Inferno pelo o que precisassem. Afinal, não são todos que se acostumam com ela. Por ser tão, em algumas situações, sensível, aprendeu a se proteger daqueles que costumam se aproveitar. É fria, não há como negar. Mas agora sabe separar as coisas. “Digam o que quiserem.” “Só te importas com o teu próprio umbigo, com o teu próprio mundo, não é?” perguntaram-lhe uma vez. A menina respirou bem fundo, cansara de responder esta mesma pergunta várias vezes. “ Não é mais fácil? Menos estressante?” “Acho que eu ficaria louco se fosse. Eu posso não ser o mais pensante, mas às vezes me enlouqueço.” “Veja dessa perspectiva, então: o meu pequeno mundinho é território conhecido, mais do que conhecido, eu diria. Sei cada coisa que agrada e o que desagrada, no caso, a mim. Então por que eu iria me arriscar em território desconhecido? Quanto mais eu sei, mais eu posso.” “Não achas que isso cansa? Conhecer o conhecido dia após dia? A emoção está em se aventurar pelo desconhecido.” Ela nunca teve conversas assim com ninguém, estava surpresa quanto à ousadia do garoto em abordá-la daquela forma. “E se não gostarmos do que descobrirmos?” “Aprenderemos, então, a lidar com isso. Tornaremos isso positivo. Vamos, tu não deves ser tão assim como dizem…” “Assim como?” “Tão fria, insensível… Eu sei que este é apenas o teu escudo. Que o teu mundo é diferente.” “E qual é o problema se não for?” “Seria tão somente decepcionante.” “Não sei qual é o objetivo desta conversa, mas acho que já bastou.” “ Seja o motivo dos sorrisos de alguém, e permita que este alguém seja o teu motivo.” E, então, o garoto partiu. Nunca ninguém a instigou assim. E que diferença fazia? Com ou sem aquela conversa, ela já sabia a quem o seu sorriso pertencia.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

A minha estrela mais brilhante

O que for, que seja o meu vício.

Mas um vício que não me vicie.

Que eu seja dependente do sorriso teu,

Mas que eu possa viver com tão somente o meu.

 

Que o teu boa noite venha para confortar as minhas noites de sono,

Mas que a tua ausência seja suficiente para me guiar em bons sonhos.

Que a tua noite se transforme no meu dia,

E que o teu silêncio que me suaviza faça do barulho aquilo que te tranquiliza.

 

Enquanto dormes, tranquilo,

Vou aos poucos tentando te encontrar.

E até lá, se eu não conseguir,

Creio que algum sinal venha para me encaminhar.

 

Calma, agora, prometo não desistir.

Tudo que me disseres vou ouvir!

A tua estrela lá no céu brilha, intensamente.

 

No fim, é juntos que vamos estar,

Assim se me esperar.

Mesmo que não dure para sempre, será eternamente!

sábado, 14 de abril de 2012

No silêncio das palavras

E quantos ais ainda suspiro

Desde que parti?

E quantas vezes na cama me reviro

Pensando em ti?

 

Da menina esqueceu

E aos tristes suspiros se rendeu

Tão distante esse olhar

Que no espelho vê se apagar

 

Estaremos juntos daqui para frente

Quem sabe, num futuro intermitente.

Mas um dia espero teus olhos fechar

Para, num sussurro, uma boa noite te desejar.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Moinhos de Sangue: Capítulo final reescrito

Esta postagem só entenderá quem leu o livro Moinhos de Sangue, de Ana Cristina Klein. A nova versão do final foi elaborada, numa proposta pelo professor de Português/ Literatura, por grupos. Segue, então, a nova versão da nova versão do final do livro! Hehehe.

 

A brisa de Xangri-lá era tão mais pacífica do que a de Porto Alegre. As crianças brincavam na piscina, enquanto a mãe, Maria Beatriz Tognazzi Aranha Gomes, apreciava o solzinho gostoso para garantir o bronzeado perfeito. Angelina parecia como a mãe, mas não sem a beleza gritante e a personalidade de Bia. Já o Pedro parecia-se com o pai, até nos trejeitos.

- Mamãe, mamãe! – as crianças não se aquietavam um segundo. Bia estava começando a se cansar desta rotina de mãe. Na verdade, só engravidara para poder gozar dos benefícios de Victor Ávila, seu dinheiro, mais precisamente. Precisava de férias das crianças. Férias com estilo, em New York!

- Papai chegou! Papai chegou!

Victor parecia estressado, mas as crianças pareciam lhe acalmar. Ao ver Bia, ele já abre um sorriso de orelha à orelha. Sempre fora apaixonado por Bia, desde que ficara viúvo. Mas ele não conhecia a verdadeira Bia. A mulher com quem ele estava casado era uma máscara de várias camadas. O triste era ele ser apaixonado por ela, e ela só sentir atração, não gostar de Victor.

- Como estavam os negócios em Porto, amor? – Bia não se interessava pelos assuntos da empresa do marido, nem por qualquer outra coisa, somente para o dinheiro e sua presença marcada nas colunas sociais. Obviamente, ela ainda estava no topo de tudo, e em todas as bocas, benditas e malditas.

- Já tivemos dias melhores. As coisas estão por um fio, mas tenho certeza de que podemos recuperar!

- Tudo se ajeita, meu querido, não te preocupes. Enfim, precisava notificar-te: vou ir à New York, tenho negócios a resolver para a empresa. Será que tem algum problema?

- Claro que não! Podes ficar tranquila! Mas, e quanto às crianças?

- Estive pensando sobre… Preciso que tome conta delas. Ou contrate uma daquelas coitadas que gostam de cuidar dos ranhentos.

- Darei um jeito. Pode ir, não te preocupe com os pequenos!

- Dará conta, mesmo? Cuidar da Angelina e do Pedro dá trabalho…

- Não te preocupes comigo também. Pode ir sem problema!

- Perfeito, então. Vou aprontar as malas.

Um marido cego pela paixão, que não consegue nem perceber suas mentiras. Pudera desejar perfeição maior? Maravilha. Suas férias em New York prometem! Novas bolsas, novos vestidos, tudo de grife, e ainda: tudo verdadeiro! Bia sentia falta de suas apostas com Soninha, sentia falta de ganhar presentes dela. Mas, se a Soninha fosse mais centrada e não se metesse no que não era chamada, ainda apostariam bobagens. Pena que ela obrigou-a a ameaçá-la com aquelas fotos comprometedoras, caso contrário até a convidaria para ir à New York…

Chegando a New York, a primeira coisa que fez foi visitar Peter. Mesmo sendo um tanto constrangedor, ele era ainda um ótimo amigo. Ajudou-a, com o seu refinado gosto, a escolher lindas bolsas e vestidos. Mas um desastre acontecera. Seu cartão de crédito estava bloqueado, teria que ver qual era o problema. E lá rumaram Bia e Peter à agência, rebaixavam-se à ralé que lá frequentava. Aqueles gerentes sempre se achavam mais do que eram. O problema do cartão é que Bia havia estourado o limite. Teria de ligar para Victor e contar o desaforo pelo qual passara. Mas Victor lhe dera a pior de todas as notícias: eles estavam sem dinheiro, a empresa falira e ela teria de voltar urgentemente.

Bia desesperou-se, não sabia mais o que fazer. Nunca passara por isso antes. A única solução que encontrara foi arranjar um amante, e usar o seu poder de manipulação para conseguir voltar ao topo novamente. Faria em New York, mesmo. Com o corpo bem cuidado, apesar da idade, e a beleza que nunca lhe abandonava seria fácil como tirar doce de crianças. E ainda mais prazeroso do que matar as suas vítimas. Com todos estes fatores a seu favor, sempre conseguia o melhor. Na verdade, ela já era o melhor, os outros apenas tinham sorte.

Tendo bom gosto em suas escolhas, acabara por conquistar um rico bilionário, alto, louro e de olhos castanho aveludados. Um corpo de atleta, parecia ter jeito pra coisa. Se não desse conta do sexo, daria conta de suas dívidas financeiras. Enfim, seria, de algum modo, útil para Bia. David, como se chamava, provocava estranhas sensações em Bia. Tesão, obviamente, era a sensação mais gritante. Mas olhar em seus olhos parecia ser algo proibido. Ele tinha o mistério como aspecto natural. Depois de uma noite enlouquecedora, Bia percebe que acertou na escolha! Bom em todos os aspectos, na verdade, ótimo! Deitados na cama, David joga-a para cima de sim, segurando seu pulso firmemente. Bia olhou em seus olhos e sentiu medo.

- Está tudo muito bom para ser verdade, acho melhor darmos uma pausa. – disse Bia, tensa.

David nada respondeu, apenas sorriu-lhe e o seu sorriso disse tudo. Foi assim que Bia arrependeu-se por ter deixado marido e filhos, por estar ali naquela cama de motel, tudo por um cartão sem limite, por uma empresa falida, por não estar no topo desta vez. Seu marido enfrentaria a viuvez de novo, e seus filhos ficariam órfãos. Passaria pelo que fez Denise, Marina e Ualdisnei passarem. Ali seria o seu fim.

domingo, 8 de abril de 2012

Tempo para desabafar

“Sinto saudade das nossas conversas. Das nossas confissões. Será que ainda tens as cartas que tanto te escrevi? Será que ainda as lê? Fico aqui te escrevendo, esperando que um dia leia todas as minhas súplicas de perdão. Sinto falta de sorrir pra ti, te fazer sorrir. Não posso voltar no tempo, mas sei que os meus erros são irreparáveis. Talvez me odeie por isso, eu me odeio. Mas, e o que fazer? Pedir-te desculpa, se não me ouves? Arrastar-me aos teus pés e esquecer o meu orgulho? Não sou capaz de tais proezas. Mas engoli muita coisa para chegar aqui e dizer-te tudo isso. Destruí o meu orgulho, destrocei-o para te defender a qualquer injustiça, mas talvez tu nunca venhas a saber. Juntar os meus pedaços foi difícil. Permanecer forte quando queria desmoronar é ainda mais. Mas tudo valia ao teu lado. Desculpe-me por qualquer inconveniência. Desculpe-me permanecer tentando. Lembro-me dos nossos bons momentos. Falta muito para voltar? Sim, e isso está claro. Não quero que isso pareça mais uma de minhas súplicas, mas sim um pedido de perdão, já que ignorastes todos os outros. Se, ao menos, não encarar como um, por favor, então não ignore. Na manhã seguinte, lembre-se de mim. Do jeito que quiseres. Mas se a lembrança for ruim, então se esqueça de mim para sempre. Mas, se não for assim, lembre-se de todas as vezes que te fiz sorrir. De todas as vezes que tu me fizeste sorrir. Foi de todo ruim? Mas enfim, não quero parecer inconveniente, mesmo já sendo. Apenas quero que fique claro: vou lembrar de ti, pois tu foi o meu motivo para acordar sorrindo. E mesmo que a nossa situação faça com que nos ignoremos, tu continuas sendo o meu motivo. Enfim, feliz Páscoa.”
E esta foi a declaração de uma menina apaixonada e arrependida, para depois encontrar o sujeito pra quem escrevera e sussurrar-lhe um mísero Bom dia.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Adormecer para te encontrar

"Everybody knows that I'm rightfully yours (...)
Love ain't gonna let you down - Jamie Cullum" 


Inquieta, ela balançava compulsivamente o pé. Todos os seus fantasmas tiraram o dia para lhe assombrar. Afinal, não podia ter sido pior. Um dia chuvoso, e as pessoas pareciam ficar mais grosseiras e insuportáveis nesta situação. Claro que a Valerie não seria exceção. Seu humor estava terrível, suas palavras afiadas. “Nem ao menos um ‘bom dia’ mereço?” “Bom dia, Daniel. Como tens passado?” “Meu dia melhora quando te vejo, e quando tu me dás atenção. Hahaha” “Palhaço. Agora, se me deres licença, preciso voltar ao trabalho.” Daniel fora um antigo namorado. O mais apaixonado que tivera. O que sofrera ao perder. Mas o passado ficara para trás, deveria seguir em frente. Havia quem dissesse que Valerie ignorava-o por ser fria, não ter sentimentos verdadeiros. Mas se soubessem da verdade… O dia demorava a passar, ela se ocupava pensando na vida. Mas não podia se permitir pensar demais. “Valerie, minha bela Valerie…” “Que susto tu me deste, Daniel! Estás maluco?” Daniel gargalhava melodicamente. “Não tens quem mais atormentar, querido?” “É uma prova de amor. Queres prova maior?” Daniel sempre foi debochado, talvez tenha sido este aspecto que tanto fascinou a Valerie. Havia muitas outras características de sua personalidade forte que a encantava. Valerie conseguia lidar com a sua presença normalmente. Era um sinal de que estava, aos poucos, enlouquecendo. “Morreria por ti, sabia?” “Não digas isso, Daniel.” Por entre beijos, ele suplicava: “prometa nunca me abandonar”. “Nem nos teus piores dias, nem nas tuas piores crises, nunca.” ela prometia. Eles sempre formaram um casal bonito. Antes de amantes, eram amigos. Confidentes. Daniel dera, no primeiro dia de primavera, uma notícia devastadora a Valerie: fora diagnosticado com câncer. Valerie paralisou, não sabia como reagir. Valerie esteve sempre ao lado de Daniel durante o tratamento. Vira seu rosto, aos poucos, empalidecer e seus cabelos começarem a cair. Já não conhecia mais aquele Daniel. Um rosto triste, enfraquecido. “Deves me amar menos, eu imagino.” “Imaginas besteira. Amo-te ainda mais.” “Se quiseres me deixar, faça, eu entendo.” “Cale esta tua boca, Daniel! Prometi estar aqui nos teus piores dias, lembra?” E assim discutiam cada dia, mas não se desentendiam. Valerie via-o desfalecer, desmoronar, e se culpava por nada poder fazer. A situação de Daniel piorava cada vez mais. “Sinto-me bem, apesar dos exames não concordarem comigo. Hahaha. Sinto-me bem por te ter ao meu lado e saiba que, mesmo que eu venha a morrer, eu te amo demais.” “Não diga mais nada. Não fale em morte. Tu vais superar essa dificuldade, vou te ajudar com isso!” Valerie replicava. “Sabe, há uma coisa de engraçada nesta história…” Daniel forçava um sorriso, mas seus lábios pálidos não colaboravam. “Diga-me, então”. “Sinto-me ainda mais apaixonado por ti. Me conquistas pelo o que tu tens feito. E agora vou morrer. Mas vou morrer de amor. Tu és minha Julieta.” “Descanse um pouco, agora. Temos ainda vários dias pela frente. Durma bem, meu Romeu.” E com um beijo, Valerie partiu. Na manhã seguinte, ela ficara sabendo que Daniel havia falecido. Valerie já não sabia mais como prosseguir, estava presa à terrível realidade. A realidade de que não tinha mais o Daniel. Estava sozinha. No entanto, não estava sozinha. Ele prometera encontrá-la em seus sonhos. Assim, toda noite Valerie o encontrava ao adormecer.