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Let me out Don't tell me everything Start it out Like any other day Must have gave the wrong impression Don't you understand where I belong? Well I'm not the one (Carry me home - The Killers)

sábado, 1 de dezembro de 2012

Carta

Naquelas cartas estavam os mais íntimos sentimentos. Em suas conversas contava-lhe os mais desconhecidos segredos. Isso em tempos que se foram, mas agora a busca é pela redenção. Um dia dissera que o amor era verdadeiro, sentimento que adormece em seu peito e é desperto por seu sorriso. Não mentira quando lhe dizia todas aquelas coisas. E preferia não tê-lo feito, pois assim não colocaria em dúvida a veracidade de suas palavras. Todo o questionamento provocava um sentimento de angústia, queria gritar que nada havia mudado, mas dessa vez preferira calar-se. Embora tentasse se afastar, tinha maiores motivos para se importar cada vez mais. Sentia que provocara tudo isso como punição e, para aliviar as tais dores, criara mundos em que fosse possível conviver com a culpa. Mas, além de tudo, sentia o que um dia os manteve unidos e isso sentia sempre. “Foste tu quem ouvira minhas histórias e a ti pedia conselhos. Lembro-me de nossas tardes, ah, nossas tardes! Aturava-me sem comentários, conversávamos como se o dia não tivesse fim. Por que eu tinha de jogar fora? Digo ser genial, mas por dizer, mesmo. Meus atos contradizem minhas palavras, eu sei, mas minhas palavras carregam a verdade incontestável do meu ser. Talvez um dia nos encontremos de novo, talvez aquelas palavras voltem a te significar algo, que para mim não deixaram de ecoar. Até lá continuo sendo a lembrança da tua ilusão. E apenas isso. Ignore minhas palavras, se assim preferir, esqueça-as, se te for melhor, mas não ignore a tua importância para mim. Então o que tu decidir eu aceitarei sem relutar. Mas talvez, se permitires, eu encontre um caminho que me traga de volta à nossa antiga estrada, que me traga de volta a ti. A decisão final deixa de ser minha e passa a ser tua”. Com uma lágrima descendo-lhe pelo rosto, pelas lembranças desencadeadas, fecha a folha de papel numa carta que talvez nem entregue.

Nome

Há tempos não dizia o nome dela, mas naquele dia fora diferente. Viu os lábios curvados num sorriso que muito antes conhecera, viu o brilho nos olhos que um dia não desviara dos seus. Sentiu saudade, alivio, sentiu tudo naquele instante. Era a quem, no início, fora apresentado. Os cabelos caíam por sobre o ombro, a mão apoiada na cintura, um corpo que secretamente desejava. Desejara, pois algo entre os dois mudou tão drasticamente que a distância dominou, esvaecendo o sorriso, o brilho inocentemente malicioso.

Aproximaram-se, aos poucos, receosos. Mas logo se viram como antes eram, grandes amigos, companheiros. O céu azul, a cor vibrante das flores e o canto dos pássaros faziam o cenário para os dois. Conversaram sobre tudo, sobre o Sol, a Terra, filmes e músicas. Enquanto ela ria, ele a fitava, maravilhado com a harmonia que testemunhava acompanhado. Entre as risadas, das mais tímidas às mais gargalhadas, ela o deitou sobre suas pernas, fazendo-lhe um tipo de cafuné em seu cabelo que mais parecia, como dizia ela, uma “bagunça com estilo”. Assim ficam por um tempo, olhando-se e rindo-se, enquanto o Sol se punha no horizonte. Não devia tê-la deixado partir, não depois do que passaram juntos e não antes do que tinham para passar. Ela, por sua vez, não devia ter se deixado levar. Mas independente disso, estavam ali, por uma força de um bem maior que não os deixaria desistir.

Falou seu nome outra vez e falaria por tantas vezes que o fizessem sorrir. Um novo dia amanheceria, e um novo após esse, mas não seria mais como era, não. Os novos dias amanheceriam para fazê-los sorrir e uni-los outra vez. Já haviam deixado suas marcas e seria difícil apagá-las. Mesmo estando longe, ele seria dela e ela seria dele. Até com tantos encontros e desencontros, o sorriso suave e brilho levemente malicioso seriam dele, e a ela restava-o como um todo.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Vozes

As vozes o enlouqueciam, não o deixavam dormir. “Esqueça”, dizia a Razão. “Não desista, ela é uma boa moça. E gosta de ti.” dizia a Emoção. “Não se rebaixe procurando toda hora por ela, tenha um pouco de amor próprio!” resmungava o Orgulho. O que fazer quando se tem tantos dando palpites? Como saber qual seguir? Como ignorar o resto? Haveria um equilíbrio? Porque ele procurava incessantemente por um.

As noites mal dormidas resultavam num mau humor matinal. Não sabia lidar com ninguém nessas circunstâncias, era grosseiro com todos. Principalmente com ela, o que partia seu coração. Não queria magoá-la, mas não conseguia trabalhar com seu humor alterado. E vi em seu olhar, no sussurro de suas palavras o que provocava. Magoava-a sem intenção, e ela recuava propositalmente.

Um dia tentou mudar. E foi assim que percebeu que Alana se distanciava. Não só dele, mas de quem a cercava. Ela estava tão solitária, sentada num canto, com o olhar distante e ele não teve a coragem de se aproximar. Então os olhares se cruzaram, ela sorriu-lhe um convite, ele timidamente recusou. De todas as coisas que pudera ter feito, por que recusar-lhe um convite? Quando tanto queria se aproximar, quando queria voltar…

Procurou-a noutro instante. Concentrada num texto, mal lhe deu atenção. Mas suas palavras ríspidas, diretas, confirmaram seus receios. Era o próprio motivo de seu distanciamento. E ela o fazia com tanta classe, tão bem que criava uma barreira intransponível. “Posso falar contigo?” Alana olhou-o cética, admirada, contrariada. “Claro que sim. Diga-me o que te aflige.” “Eu sei que não tenho sido um bom…” Não sabia como rotular-se, afinal eram um pouco mais do que amigos, um pouco mais íntimos. “Amigo.” Completou Alana. “Bom, se é isso que eu sou…” “É um amigo quando não estamos juntos. Enfim, se veio dar explicações, poupe saliva, pois te entendo e não te obrigo a me dar satisfações. Agora, se me dá licença, vou continuar o que estava fazendo, preciso acabar para já!” E assim Alana encerrou a conversa.

As vozes insistiam mais e mais, o Orgulho insistentemente gritava para ser ouvido. O que acontecera não se pode explicar. Antes ela era tão carinhosa, mas agora suas palavras tornaram-se afiadas. A ideia de perdê-la por não lhe dar atenção era insuportável. Nunca gostara tanto de alguém como gosta dela. Decidiria o que fazer. O mais rápido possível, pois aos poucos ia perdendo seu lugar na vida dela, à medida que ela encontrava alguém para substituir. “Alana!” Ela fez um sinal para que esperasse. “Sim, Miguel. Esse é o meu nome, cuide para não gastá-lo, senão terás que me comprar um novo.” Ela disse, sorridente. Por trás do sorriso, pode-se ver a mágoa que guardava. “Compraria o mesmo, gosto tanto desse nome.” Sorriu-lhe em resposta. “Precisamos conversar.” “Podemos fazê-lo aqui.” Ela não parecia curiosa, embora forçasse a expressão de interessada. “Desculpe, estou um tanto ocupada. Encontramo-nos em algum outro lugar, pode ser? Mais tarde.” Dito isso, ela voltou sua atenção ao trabalho inacabado.

Sentiu que não a tinha mais. A Razão adotara o discurso “Avisei”, o Orgulho reclamava sobre a falta de amor próprio. Miguel já estava cheio daquela gritaria. Não queria mais escutar, não queria mais os palpites, não queria mais nada, somente tê-la. Para isso, teria de fazer valer a pena. Marcou um jantar em sua casa, uma sessão de filmes de suspense – Alana adorava pensar e concluir junto aos atores do filme – tentaria reconquistá-la. “Então, eu andei pensando e…” “Não, esse meu distanciamento não tem nada a ver com a nossa situação. Ainda continuo gostando de ti, mais do que deveria, até. Mas acho que alguns assuntos meus devem ser discutidos somente com o meu Eu, sabe. Esses espaços que tu me dás são ótimos, agradeço a ti pela compreensão. Mas não te preocupes, nada mudou!” As palavras dela lhe foram reconfortantes, e não tinha mais dúvida. Sempre a tivera, e continuaria a tê-la. O sorriso que ela lhe abriu extinguiu todas as desconfianças que teve, todos os problemas que o estressavam. Acalmou-o. E ali teve certeza: amava-a, e lutaria por ela. As vozes calaram-se, e a Emoção, vitoriosa, suspirou em paz.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Quando a história acaba de começar

“Diga-me o que te aflige.” dizia ela. “Pelos céus, não há nada, guria! Deixe-me quieta no meu canto!” As duas discutiam, indignadas. “Não é para isso que as amigas servem?” perguntava Eliza. “Não, amigas servem para consolar e não para atormentar!” grunhia, em resposta, Lara. “E o que eu estou tentando fazer?” “Estás tentando me irritar ainda mais. Não percebe? Deixar-me quietinha aqui é o melhor consolo que tu tens a me oferecer!” Eliza, ofendida com as palavras secas que lhe foram cuspidas, afastou-se. “Veja bem o que dizes. Não te arrependa depois.” Lara viu-a sair, lenta e decididamente, pela porta. Suspirou e atirou-se na cama.

Ligou o rádio, colocou sua lista de música favorita, fechou os olhos e tentou dormir. Não conseguiu dormir, estava agitada demais, sua cabeça latejava, o coração palpitava. Fechava os olhos novamente, mas logo tornava a abri-los. Tantas coisas embaralhadas em sua cabeça… Além do cabelo, é claro. Os pensamentos invadiam o seu espaço num turbilhão lançado a jato. A semana começara tão bem, por que acabou daquele jeito? O que estaria ela fazendo? O caminho não deveria ser esse. Mas agora não poderia mais voltar ou olhar para trás. Era apenas uma mudança. Não morreria, mas não significava que às vezes não teria vontade de desistir.

‘Se te faz bem, por que não persistir?’ esse era o seu lema. O único problema eram as pequenas confusões que aconteciam dentro de si mesma. Os conflitos, as pressões, o desespero que agora tem de superar. Seria difícil? Provavelmente. Desistiria? Agora não. Chegou tão longe, não podia parar agora. Afinal, era uma admiradora de desafios. Ela transpôs todo e qualquer obstáculo até agora. Nesse ritmo continuaria. ‘O que é conquistado tão facilmente não me tem valor, é praticamente dado. As minhas batalhas são importantes, as minhas conquistas têm muito mais valor. ’ pensava Lara. Persistiria, afinal era uma batalha que não poderia deixar de lutar.

“O que tu faria se eu te dissesse pra me esquecer?” perguntou Gabriel. Lara, num sobressalto, olhou-o analisando a essência da pergunta. “Simplesmente te esqueceria.” “Não ficaria abalada, triste, magoada, algo do gênero?” perguntou ele. “Isso tu nunca saberias…” Gabriel desviou o olhar, evitando o de Lara. “Por que essa pergunta repentina?” perguntou Lara. “Só não quero te perder.” “Lógico…” sussurrou ela, numa ironia deleitosa. O que Gabriel não sabia era que Lara ficaria devastada, desesperada, mas ela não deixaria ninguém saber. Guardaria tudo, mesmo que não fosse o melhor a se fazer. Devastada, mas ainda continuaria seu caminho.

Lara acordou-se do sono, não percebeu que adormecera. Sua cabeça ainda latejava, mas o desconforto era menos intenso. Vestiu-se e saiu. Não pensava em nada, só em parecer que estava bem, para não atrair curiosos na reunião. Encontrou, inevitavelmente, o Gabriel que compareceria na reunião também. Agora já não se falavam mais. O que aconteceu já se pode imaginar. Forçando um sorriso amigável, os dois cumprimentaram-se e entraram no recinto. Ambos evitavam trocar olhares, mas Gabriel observou que Lara parecia estressada, deprimida. Lara, por sua vez, notou que Gabriel estava menos falante. Já não se conheciam mais. E por um instante ela viu de relance um sorriso tímido. Por um instante voltou ao passado. Foi nesse instante que também sorriu. Ainda foi tudo o que ela não esqueceu. Tudo o que eles não esqueceram.

sábado, 23 de junho de 2012

Embora distante, o atalho levará a novos limites

Olhou para os lados. Sentia fome, sentia frio, sentia, mas tão somente isso. Estava sozinha, estava numa crise. Fizera a escolha certa? De um lado, sabia que não. Ainda pensava nele, desejava-o para si. De outro, sabia que sim. Não se condenaria a alguém que brincava para sentir-se bem, fizera uma troca justa. As vozes em sua cabeça não a deixavam dormir. Se voltasse atrás, conseguiria descansar? Deitou-se atordoada e custou a sonhar.

Sonhar? Já não sonhava mais. Suas lágrimas, já secas, se empoeiravam rolando a sua face. Lamentava cada vez mais. Alguém a tiraria do limbo em que se afogava? Claro que sim. Mas, por este, queria mesmo ser resgatada? Não queria mais pensar nisso, não precisava mais. A solução era arrumar algo para fazer, ocupar-se, distrair-se. Contar as estrelas se fosse preciso. Levar a eternidade, acabar com essa maldita ansiedade!

Determinada a esquecer, resolveu agir. Olhou a sua volta: as papeis jogados sobre a escrivaninha, pratos sujos na pia, migalhas sobre a mesa, móveis empoeirados, chão sujo. Era uma bagunça total. Pegou suas luvas, a vassoura e os produtos de limpeza. Seria um trabalho árduo. Preferiu começar pela louça. Lavou prato por prato, calmamente. Não pensava em mais nada além da sujeirinha que não tirara completamente, ou do prato mal enxugado.

Em seguida, organizou sua escrivaninha. Os papeis inúteis jogou fora. Por entre os que ficaram, encontrou um pequeno bilhete: ‘como posso te convencer? O que sinto é verdadeiro. ’ Paralisou por um instante. Memórias voltam repentinamente. Sente seu cheiro, o seu toque. Estremece e pensamentos tornam-se verbalizados. Lamentável, sussurra. Tira o pó, coloca em tudo em ordem. Está na hora de dar um passo a frente.

Parte para o chão. Varre cuidadosamente, cantarolando para se esquecer. A sala fica impecável. O próximo passo foi o chão da cozinha. O chão era de lajotas claras, e quando sujo não se enxergava nada além da espessa sujeira. Ajoelhou-se e começou a esfregar. Por entre as pausas, acabava por pensar. Pensava nele, na falta que fazia. Pensava também no outro, no sorriso que para ela ele abria. O que fazer era difícil de decidir. Queria tê-lo de volta, mas para isso acabaria magoando o outro. Não queria vê-lo sofrer.

Além disso, nem tinha certeza se seria aceita de volta. Estava diante de uma bifurcação, com destinos incertos. Já conseguia enxergar por detrás da sujeira. Olhou para os lados, tudo limpo, tudo tão mais claro, tudo mais leve. De repente, teve a solução de que precisava. Sem hesitar foi ao quarto, separou o necessário por algum tempo. Fechou toda a casa. Ao fechar a porta, olha para os lados, sentindo-se estranha. Ao sair em definitivo, olha para trás e suspira profundamente. Estava fazendo um atalho para, talvez, chegar a algum dos destinos. Ou, então, para criar o seu próprio. Mas isso o tempo determina.

domingo, 10 de junho de 2012

A fuga para um sonho, o final de mais um de seus contos

Seus dedos enrijecidos pairavam sobre o teclado. Não sabia o que escrever, sobre o que escrever. Suas dúvidas o cercavam, já não se tinha certeza de mais nada. O sol não o esquentava, o silêncio o inquietava, queria não querer. Tantos dilemas, tantas perguntas, nenhuma resposta, nenhuma luz para guiá-lo. Seus papeis permaneciam jogados pela mesa, assim todo o resto se mostrava numa organização caótica. Não tinha namorada, não precisava de uma, embora muitas o desejassem. Sua cabeça latejava, a luz irritava seus olhos. Queria gritar, mas silenciar-se no volume de suas palavras. O que ele iria levar no final da sua estrada, quando tudo se acabasse? Do que iria se lembrar? O que valeria a pena no final? Realmente se lembraria de algo? Não tinha com quem conversar, se afastou de seus melhores amigos. A única pessoa que o ouviria não estava em condições, tinha seus próprios problemas para resolver. Às vezes, ele mesmo se pergunta como pode chegar a tal ponto. Por que não o impediram antes? Para essa pergunta ele tem a resposta: não podia ser impedido, se tivesse algo a aprender teria de ser feito por si mesmo. Não saberia se levantar se outrora não tivesse caído. Há algumas coisas que se devem ser vividas, e é impossível impedi-las. E lá estava ele, sozinho. No entanto, havia alguém que nunca o abandonara. Ironia era estar sozinho estando acompanhado. Lembrava-se dela nitidamente. Sentia seu cheiro, sentia seu toque quente sobre suas mãos enregeladas. Via o seu olhar meigo, seu sorriso mordaz. Tinha-a em sua frente. Passou os dedos por entre as madeixas, sentindo a maciez de seus cachos em meio ao cabelo liso. Olhou-a nos olhos, afogando-se nas profundezas de um olhar magnético puramente verde. Havia algo de diferente, podia ver e sentir. Seu olhar era frio, seu toque, que outrora o esquentava, agora gelava seus dedos suavemente. Seu cheiro era diferente. O perfume de chocolate e frutas vermelhas não se sentia mais do pescoço dela. Por entre seus dedos havia um toco de cigarro. Dissera a ela que a essência se perdia misturada ao do tabaco. Ela lhe fora indiferente. Dissera-lhe palavras que preferiu esquecer, agiu como se tivesse sido abduzida, afinal aquela criatura não era quem ele conhecia como tantos contos que escrevera. Magoado, afastou-se. Esqueceu-se de tudo e todos à sua volta. O mundo girava, agora, só para si mesmo e para mais ninguém. Criou uma barreira impenetrável. Esqueceu-se até de quem era. Seus contos já não faziam mais sentido. Quem era ele? Ele poderia ser qualquer um. Ora um herói, ora o vilão. Quem ele realmente era? Era um tolo, não, fora um tolo. Agora ressurgia do chão, caído, mas tão mais forte. Seus olhos no espelho refletiam um oceano azul, calmo, mas imprevisível. Agora este era ele. Então, que ele iria levar no final da sua estrada, quando tudo se acabasse? Todas as oportunidades que um dia perdera. Do que iria se lembrar? De todas as ironias a ele dirigidas, de todas as demonstrações de carinho e desprezo. De tudo pelo que passara. O que valeria a pena no final? O arrependimento, a raiva, as alegrias e as realizações. Realmente se lembraria de algo? Nunca se esqueceria. Não se esqueceria de todas as transformações, de cada olhar, de cada toque. De tudo que um dia escrevera. Afinal, agora sabia quem ele era e não se importava se tudo se acabasse ali. Seria seu final mais perfeito, o fim de mais um de seus contos.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

A dúvida que o silêncio cala

Sua voz saía suave e seu sorriso era agradável. Não reconhecia mais os olhos inflamados de raiva que vira da última vez. Voltara a ser ela. Mesmo que por um instante, ele a reconhecia. Fora bem tratado, portanto, assim retribuía. Queria tocar o seu braço, como antes fazia, mas receava um desentendimento. Apenas a observou partir. Até mesmo sem a encarar, sentia a calma que dela emanava, sempre com o seu costumeiro ar de superioridade. Não a via assim desde seu reencontro. O que aconteceu para estarem tão distantes? E por que se sentiram tão conectados naquele instante? Aproximaram-se sem relutância. Ela sentia falta, mas não demonstrava. Ele era, por vezes, grosseiro. Não sabia disfarçar, mas não se renderia, seu orgulho era muito superior a isso. Ele desejava saber o que se passava, o que ela sentia e pensava, mas era impossível. Pensava nela a cada ironia, a cada olhar que lhe era dirigido. Já começava a atrapalhar. Talvez por esse motivo, talvez não, seu humor amanhecia já amargo. Suas palavras chegavam afiadas. E ela só piorava a situação. “Quem desdenha quer comprar…” dissera uma vez a ela. “Imagina então, quero muito te comprar!” esvaindo em gargalhadas, a fala ecoa. Ela dizia querendo dizer e ele sabia da verdadeira intenção. Ficaria feliz se assim fosse. Não diria o mesmo em atuais circunstâncias. Já não permite tanta aproximação, mantém-na longe. E ela, com muito grado, faz. Quando seus olhares se encontram, ela curva seus lábios, imperceptivelmente, num sorriso debochado em resposta a seu olhar indiferente. Era como se seus sorrisos, suas ironias, e até mesmo suas decepções, dissessem: ‘eu sei que te fiz bem, pelo menos um dia. Importei-me contigo, estive ao teu lado. E como o ditado diz: nada que é bom dura para sempre. Errei ao acabar dessa maneira. Não me preocupo de continuar nesta condição. Só não me olhe como se nunca tivesse sorrido para mim, ou por minha causa!’ Enfim, seus olhares diziam tudo que suas palavras não verbalizavam. E ainda continuavam misteriosos. Intransponíveis. Mas agora, o calor vinha do seu olhar travesso e provocante, do sorriso radiante, uma combinação que o arrepiava por inteiro. Ela, naquele instante, era a que conhecera, e não a que se tornara depois. Ela era quem o fazia sorrir. E ela o fez sorrir quando partiu.

domingo, 3 de junho de 2012

Contigo ao meu lado, sei no que acreditar

O que seria isso que nunca sentira antes? Antes, era tudo tão simplório, agia indiferentemente. Mas agora algo mudou. E era possível, claramente, perceber. “E se…” “E se nada, garoto. Não coloque ideias nesta cabecinha, se sabes que não terás retorno.” Ela era fria demais, mesmo não sendo. “Tu estás diferente”, um dia ele lhe dissera. Realmente, ela estava diferente. Algo, no seu âmago, indicara isso. O que tanto reprimia acabara por transbordar. “Imaginação. Estou mais sorridente, se é isso que me dizes.” Ele a encarava, e por vezes sorria. Um mistério para ele, a mais pura lógica para ela. Estaria ele tentando ignorar? O que estaria buscando? Uma confirmação verdadeira, incontestável. Devia ela, agora, provar-lhe. “Não sabia que gostava de mim… Não assim, pelo menos.” Ele a provocava como o gato que brinca com o novelo antes de desenrolá-lo. “Nunca disse o contrário.” “E por que não me disseste nas vezes que te perguntei?” “Não encontrava palavras para dizê-lo.” Assim se silenciavam. “Por favor, não me entenda errado.” ela suplicava. Sem dizer, ele apenas sorria-lhe. As horas passavam, e se arrastavam quando estavam juntos. “Acho incrível como as pessoas mudam quando estão com outras, não é?” ela, indiferente, comentava. “Por que dizes isso?” Desvencilhando-se do abraço que a envolvia, olha-o com os olhos de pura malícia. “Foi só um comentário, não precisa te acanhar.” Beijando a sua bochecha, ela recosta a face sobre seu ombro. Ele pode ser o gato às vezes, mas nunca deixará de ser o seu novelo. Inquieto, ele tamborilava seus dedos na perna dela. “Eu sei que mudo quando estou com outras pessoas.” ele disse. “Nem te preocupes com o meu comentário. Isso é natural. Entendo que o jeito que tu ages comigo é diferente do jeito que tu ages com o teu melhor amigo, ou melhor amiga.” Ele sentiu uma pontada quando ela dissera ‘melhor amiga’, mas não sabia explicar o que era. Mas no fim, acabou entendendo. “Estás com ciúme de alguém?” “Eu?” perguntou ela, rindo timidamente. Ele nada disse, apenas esperou por resposta. Persistindo o silêncio, ela resolveu se pronunciar. “Ok, estou com ciúme sim. Sei que há tempos ela é a tua amiga. Melhor amiga. Vocês estão sempre juntos, e agora que percebi que gosto de ti, sinto medo de perder-te.” “Não precisas te preocupar com isso, anjo. Somos só amigos, e, além disso, não faço o tipo dela.” Ele beijou-a de leve, vendo-a enrubescer. “Estou contigo e só contigo.” “Fazer o quê? Sinto saudade, sinto ciúme, já não posso mais controlar.” Dizia ela, envergonhada. “Não sabia que tu sentias ciúme, parecia tão indiferente quanto a isso…” “Não costumo sentir, e é quando eu sinto que me preocupo.” “Terei de me certificar de que não sintas…” Ele disse, beijando-a outra vez. “Minha menina ciumenta, não quero que essa ideia atormente-a novamente. Não suportarei ver esta tua boca curvar-se por essa preocupação infundada, ouviu-me?” Sem responder-lhe, ela acena a cabeça. “Então, assim serei teu, e tu serás minha!” Suas mãos se encaixaram, e a segurança de se terem tomou-lhes calmamente.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Tão diferentes para um mesmo destino

Esta dependência, esta ânsia por mais e mais, os deixavam inquietos. Ela tamborilava os dedos, ele mexia o pé. Evitavam se encarar. “Sinto falta dos nossos bons momentos.” pensava ela. “Apesar de tudo, te quero de volta”, atormentado pelo pensamento, ele troca de posição. Durante todo o momento de espera não trocaram olhares. “Melissa, passe aqui comigo. Por favor.” chamou a voz. A moça levantou-se e seguiu, deixando-o ali sozinho. O que faziam ali? Não poderiam resolver seus problemas? Como envolver outra pessoa, que nem ao menos conhecem, resolveria tudo? Pedro, distante, agora tamborilava seus dedos. Não conseguia prestar atenção em mais nada, estava agitado. Queria respostas. Ansiava por eficiência. “Sente-se”, disse a mulher à Melissa. Ela encarou-a, desconfiada, mas fora obediente. Obediência era o que resumia sua vida. “Sinta-se à vontade. Estou aqui para te ouvir, não se esqueça do nosso propósito!” Melissa nem ao menos suspirou. Pacientemente, a mulher retomou: “Não faça deste encontro um desperdício! Aproveite esta chance, afinal há de ter algum motivo que a traz aqui!” Melissa olhou-a lentamente. De má vontade, começou a falar. Depois, já se sentia como um livro aberto. A porta abriu e a moça saiu, encarando Pedro fixamente. Em seu encalce, a mulher que a chamara carregava montes de papeis colados ao seu colo. Num descuido, todas as folhas espalharam-se pelo chão, e Melissa, gentilmente, ajudara-a a recolher. Pedro não podia negar seu lado cavalheiro, levantou-se para ajudar também. Enquanto juntavam os papeis, Pedro se esqueceu de sua ansiedade, motivo pelo qual o levara até lá, e Melissa esquecera dos seus problemas pessoais. Estavam encantados com a paz que, de repente, os tomou. Os dois ainda evitavam se encarar, mesmo estando tão próximos um do outro. Mas, inevitavelmente, suas mãos acabaram se encaixando, obrigando-os a se olhar. Pedro viu as maçãs do rosto de Melissa enrubescer, e Melissa viu um brilho de esperança surgir em seu olhar. Estavam ali relembrando o passado, mas juntos criarão um novo futuro.

sábado, 26 de maio de 2012

Nos meus sonhos

Chegou em casa, largou suas coisas por cima da cama. Estava cansado, mas o sorriso estampado em seu rosto o fazia esquecer. Por que estivera, ultimamente, tão animado? Faminto, passara a manhã inteira de jejum. Comeu algumas frutas que encontrou pela frente, e não parava de pensar sobre. Seria perigoso levar à diante? Demais. Conseguiria controlar-se? Impossível. Precisava de uma solução.  Estava, aos poucos, entregando-se ao vício. O telefone permanecia sobre a mesa. Esperava receber uma ligação, mas sabia que não receberia. Procurou algo para se ocupar. Não encontrava mais nada. Resolvera organizar os papéis que tinha jogado aos cantos. Quantas memórias aquelas folhas traziam... A saudade apertava o seu peito. Por fim, encontrara o papel que mais lhe prendeu a atenção. Era uma carta dela. Suas palavras, tão doces, o emocionava. Queria tê-la por perto. Precisava dela. Será que ela também precisava? Enquanto lia as muitas linhas que lhe foram destinadas, algumas lágrimas rolavam pela face. Seriam lágrimas de tristeza? Certamente não. Seriam de saudade, de desejo. As suas cartas, os seus bilhetes eram intrigantes. Ela, e só ela, tinha a habilidade de envolver o leitor. Resolvera ligar. Seu coração palpitava, emocionado, enquanto aguardava resposta. Finalmente, ouve-se o 'alô'. O que dizer? "Sabe, tenho identificador de chamadas, e sei bem que é... Afinal, ia ligar-te. Já estava com saudade." a voz meiga dizia-lhe. "Por que hesitou, então?" perguntou-a. "Estive ocupada, desculpe. Não pense que me esqueci. Ao contrário! Lembro-me a cada instante!" Ouvir tais palavras o confortou. Talvez ela realmente precisasse dele.      "Ligou-me para ouvir a minha voz? Que romântico! Apaixono-me mais e mais!" disse, soltando uma risada melódica. "Liguei para dizer que já não penso em mais nada..." sussurrou-lhe, em resposta. "Confesso que nem eu. Passo o dia pensando em nós, em como queria estar ao teu lado. Nos nossos encontros, sussurro às estrelas, peço que te façam ficar por mais um tempo." Fez-se silêncio. Ela, então, retomou: "Eu tenho rido mais, sabia? Tenho estado menos estressada... E todos perguntam pelo motivo de minha euforia. Não os respondo, já não é da conta deles...”. Conversaram por mais um pouco, mas eles tiveram de desligar. As palavras da moça ficaram ecoando em sua mente, a euforia crescia dentro de si. Já não havia mais motivo para deixar de pensar nela. À noite, quando ia deitar-se, pensou nos belos olhos castanhos, no sorriso travesso, nas curvas harmônicas,  na voz suave que o fazia delirar. Pensou nela e sussurrou "Eu te amo". Em resposta, a moça visitou os seus sonhos.