Naquelas cartas estavam os mais íntimos sentimentos. Em suas conversas contava-lhe os mais desconhecidos segredos. Isso em tempos que se foram, mas agora a busca é pela redenção. Um dia dissera que o amor era verdadeiro, sentimento que adormece em seu peito e é desperto por seu sorriso. Não mentira quando lhe dizia todas aquelas coisas. E preferia não tê-lo feito, pois assim não colocaria em dúvida a veracidade de suas palavras. Todo o questionamento provocava um sentimento de angústia, queria gritar que nada havia mudado, mas dessa vez preferira calar-se. Embora tentasse se afastar, tinha maiores motivos para se importar cada vez mais. Sentia que provocara tudo isso como punição e, para aliviar as tais dores, criara mundos em que fosse possível conviver com a culpa. Mas, além de tudo, sentia o que um dia os manteve unidos e isso sentia sempre. “Foste tu quem ouvira minhas histórias e a ti pedia conselhos. Lembro-me de nossas tardes, ah, nossas tardes! Aturava-me sem comentários, conversávamos como se o dia não tivesse fim. Por que eu tinha de jogar fora? Digo ser genial, mas por dizer, mesmo. Meus atos contradizem minhas palavras, eu sei, mas minhas palavras carregam a verdade incontestável do meu ser. Talvez um dia nos encontremos de novo, talvez aquelas palavras voltem a te significar algo, que para mim não deixaram de ecoar. Até lá continuo sendo a lembrança da tua ilusão. E apenas isso. Ignore minhas palavras, se assim preferir, esqueça-as, se te for melhor, mas não ignore a tua importância para mim. Então o que tu decidir eu aceitarei sem relutar. Mas talvez, se permitires, eu encontre um caminho que me traga de volta à nossa antiga estrada, que me traga de volta a ti. A decisão final deixa de ser minha e passa a ser tua”. Com uma lágrima descendo-lhe pelo rosto, pelas lembranças desencadeadas, fecha a folha de papel numa carta que talvez nem entregue.
"Conte-me e eu vou esquecer. Mostre-me e eu vou lembrar. Envolva-me, e eu vou entender." Confúcio
Bem-vindo!
Quem sou eu

- Maria Paula
- Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brazil
- Let me out Don't tell me everything Start it out Like any other day Must have gave the wrong impression Don't you understand where I belong? Well I'm not the one (Carry me home - The Killers)
sábado, 1 de dezembro de 2012
Nome
Há tempos não dizia o nome dela, mas naquele dia fora diferente. Viu os lábios curvados num sorriso que muito antes conhecera, viu o brilho nos olhos que um dia não desviara dos seus. Sentiu saudade, alivio, sentiu tudo naquele instante. Era a quem, no início, fora apresentado. Os cabelos caíam por sobre o ombro, a mão apoiada na cintura, um corpo que secretamente desejava. Desejara, pois algo entre os dois mudou tão drasticamente que a distância dominou, esvaecendo o sorriso, o brilho inocentemente malicioso.
Aproximaram-se, aos poucos, receosos. Mas logo se viram como antes eram, grandes amigos, companheiros. O céu azul, a cor vibrante das flores e o canto dos pássaros faziam o cenário para os dois. Conversaram sobre tudo, sobre o Sol, a Terra, filmes e músicas. Enquanto ela ria, ele a fitava, maravilhado com a harmonia que testemunhava acompanhado. Entre as risadas, das mais tímidas às mais gargalhadas, ela o deitou sobre suas pernas, fazendo-lhe um tipo de cafuné em seu cabelo que mais parecia, como dizia ela, uma “bagunça com estilo”. Assim ficam por um tempo, olhando-se e rindo-se, enquanto o Sol se punha no horizonte. Não devia tê-la deixado partir, não depois do que passaram juntos e não antes do que tinham para passar. Ela, por sua vez, não devia ter se deixado levar. Mas independente disso, estavam ali, por uma força de um bem maior que não os deixaria desistir.
Falou seu nome outra vez e falaria por tantas vezes que o fizessem sorrir. Um novo dia amanheceria, e um novo após esse, mas não seria mais como era, não. Os novos dias amanheceriam para fazê-los sorrir e uni-los outra vez. Já haviam deixado suas marcas e seria difícil apagá-las. Mesmo estando longe, ele seria dela e ela seria dele. Até com tantos encontros e desencontros, o sorriso suave e brilho levemente malicioso seriam dele, e a ela restava-o como um todo.
sexta-feira, 27 de julho de 2012
Vozes
As vozes o enlouqueciam, não o deixavam dormir. “Esqueça”, dizia a Razão. “Não desista, ela é uma boa moça. E gosta de ti.” dizia a Emoção. “Não se rebaixe procurando toda hora por ela, tenha um pouco de amor próprio!” resmungava o Orgulho. O que fazer quando se tem tantos dando palpites? Como saber qual seguir? Como ignorar o resto? Haveria um equilíbrio? Porque ele procurava incessantemente por um.
As noites mal dormidas resultavam num mau humor matinal. Não sabia lidar com ninguém nessas circunstâncias, era grosseiro com todos. Principalmente com ela, o que partia seu coração. Não queria magoá-la, mas não conseguia trabalhar com seu humor alterado. E vi em seu olhar, no sussurro de suas palavras o que provocava. Magoava-a sem intenção, e ela recuava propositalmente.
Um dia tentou mudar. E foi assim que percebeu que Alana se distanciava. Não só dele, mas de quem a cercava. Ela estava tão solitária, sentada num canto, com o olhar distante e ele não teve a coragem de se aproximar. Então os olhares se cruzaram, ela sorriu-lhe um convite, ele timidamente recusou. De todas as coisas que pudera ter feito, por que recusar-lhe um convite? Quando tanto queria se aproximar, quando queria voltar…
Procurou-a noutro instante. Concentrada num texto, mal lhe deu atenção. Mas suas palavras ríspidas, diretas, confirmaram seus receios. Era o próprio motivo de seu distanciamento. E ela o fazia com tanta classe, tão bem que criava uma barreira intransponível. “Posso falar contigo?” Alana olhou-o cética, admirada, contrariada. “Claro que sim. Diga-me o que te aflige.” “Eu sei que não tenho sido um bom…” Não sabia como rotular-se, afinal eram um pouco mais do que amigos, um pouco mais íntimos. “Amigo.” Completou Alana. “Bom, se é isso que eu sou…” “É um amigo quando não estamos juntos. Enfim, se veio dar explicações, poupe saliva, pois te entendo e não te obrigo a me dar satisfações. Agora, se me dá licença, vou continuar o que estava fazendo, preciso acabar para já!” E assim Alana encerrou a conversa.
As vozes insistiam mais e mais, o Orgulho insistentemente gritava para ser ouvido. O que acontecera não se pode explicar. Antes ela era tão carinhosa, mas agora suas palavras tornaram-se afiadas. A ideia de perdê-la por não lhe dar atenção era insuportável. Nunca gostara tanto de alguém como gosta dela. Decidiria o que fazer. O mais rápido possível, pois aos poucos ia perdendo seu lugar na vida dela, à medida que ela encontrava alguém para substituir. “Alana!” Ela fez um sinal para que esperasse. “Sim, Miguel. Esse é o meu nome, cuide para não gastá-lo, senão terás que me comprar um novo.” Ela disse, sorridente. Por trás do sorriso, pode-se ver a mágoa que guardava. “Compraria o mesmo, gosto tanto desse nome.” Sorriu-lhe em resposta. “Precisamos conversar.” “Podemos fazê-lo aqui.” Ela não parecia curiosa, embora forçasse a expressão de interessada. “Desculpe, estou um tanto ocupada. Encontramo-nos em algum outro lugar, pode ser? Mais tarde.” Dito isso, ela voltou sua atenção ao trabalho inacabado.
Sentiu que não a tinha mais. A Razão adotara o discurso “Avisei”, o Orgulho reclamava sobre a falta de amor próprio. Miguel já estava cheio daquela gritaria. Não queria mais escutar, não queria mais os palpites, não queria mais nada, somente tê-la. Para isso, teria de fazer valer a pena. Marcou um jantar em sua casa, uma sessão de filmes de suspense – Alana adorava pensar e concluir junto aos atores do filme – tentaria reconquistá-la. “Então, eu andei pensando e…” “Não, esse meu distanciamento não tem nada a ver com a nossa situação. Ainda continuo gostando de ti, mais do que deveria, até. Mas acho que alguns assuntos meus devem ser discutidos somente com o meu Eu, sabe. Esses espaços que tu me dás são ótimos, agradeço a ti pela compreensão. Mas não te preocupes, nada mudou!” As palavras dela lhe foram reconfortantes, e não tinha mais dúvida. Sempre a tivera, e continuaria a tê-la. O sorriso que ela lhe abriu extinguiu todas as desconfianças que teve, todos os problemas que o estressavam. Acalmou-o. E ali teve certeza: amava-a, e lutaria por ela. As vozes calaram-se, e a Emoção, vitoriosa, suspirou em paz.
sexta-feira, 6 de julho de 2012
Quando a história acaba de começar
“Diga-me o que te aflige.” dizia ela. “Pelos céus, não há nada, guria! Deixe-me quieta no meu canto!” As duas discutiam, indignadas. “Não é para isso que as amigas servem?” perguntava Eliza. “Não, amigas servem para consolar e não para atormentar!” grunhia, em resposta, Lara. “E o que eu estou tentando fazer?” “Estás tentando me irritar ainda mais. Não percebe? Deixar-me quietinha aqui é o melhor consolo que tu tens a me oferecer!” Eliza, ofendida com as palavras secas que lhe foram cuspidas, afastou-se. “Veja bem o que dizes. Não te arrependa depois.” Lara viu-a sair, lenta e decididamente, pela porta. Suspirou e atirou-se na cama.
Ligou o rádio, colocou sua lista de música favorita, fechou os olhos e tentou dormir. Não conseguiu dormir, estava agitada demais, sua cabeça latejava, o coração palpitava. Fechava os olhos novamente, mas logo tornava a abri-los. Tantas coisas embaralhadas em sua cabeça… Além do cabelo, é claro. Os pensamentos invadiam o seu espaço num turbilhão lançado a jato. A semana começara tão bem, por que acabou daquele jeito? O que estaria ela fazendo? O caminho não deveria ser esse. Mas agora não poderia mais voltar ou olhar para trás. Era apenas uma mudança. Não morreria, mas não significava que às vezes não teria vontade de desistir.
‘Se te faz bem, por que não persistir?’ esse era o seu lema. O único problema eram as pequenas confusões que aconteciam dentro de si mesma. Os conflitos, as pressões, o desespero que agora tem de superar. Seria difícil? Provavelmente. Desistiria? Agora não. Chegou tão longe, não podia parar agora. Afinal, era uma admiradora de desafios. Ela transpôs todo e qualquer obstáculo até agora. Nesse ritmo continuaria. ‘O que é conquistado tão facilmente não me tem valor, é praticamente dado. As minhas batalhas são importantes, as minhas conquistas têm muito mais valor. ’ pensava Lara. Persistiria, afinal era uma batalha que não poderia deixar de lutar.
“O que tu faria se eu te dissesse pra me esquecer?” perguntou Gabriel. Lara, num sobressalto, olhou-o analisando a essência da pergunta. “Simplesmente te esqueceria.” “Não ficaria abalada, triste, magoada, algo do gênero?” perguntou ele. “Isso tu nunca saberias…” Gabriel desviou o olhar, evitando o de Lara. “Por que essa pergunta repentina?” perguntou Lara. “Só não quero te perder.” “Lógico…” sussurrou ela, numa ironia deleitosa. O que Gabriel não sabia era que Lara ficaria devastada, desesperada, mas ela não deixaria ninguém saber. Guardaria tudo, mesmo que não fosse o melhor a se fazer. Devastada, mas ainda continuaria seu caminho.
Lara acordou-se do sono, não percebeu que adormecera. Sua cabeça ainda latejava, mas o desconforto era menos intenso. Vestiu-se e saiu. Não pensava em nada, só em parecer que estava bem, para não atrair curiosos na reunião. Encontrou, inevitavelmente, o Gabriel que compareceria na reunião também. Agora já não se falavam mais. O que aconteceu já se pode imaginar. Forçando um sorriso amigável, os dois cumprimentaram-se e entraram no recinto. Ambos evitavam trocar olhares, mas Gabriel observou que Lara parecia estressada, deprimida. Lara, por sua vez, notou que Gabriel estava menos falante. Já não se conheciam mais. E por um instante ela viu de relance um sorriso tímido. Por um instante voltou ao passado. Foi nesse instante que também sorriu. Ainda foi tudo o que ela não esqueceu. Tudo o que eles não esqueceram.
sábado, 23 de junho de 2012
Embora distante, o atalho levará a novos limites
Olhou para os lados. Sentia fome, sentia frio, sentia, mas tão somente isso. Estava sozinha, estava numa crise. Fizera a escolha certa? De um lado, sabia que não. Ainda pensava nele, desejava-o para si. De outro, sabia que sim. Não se condenaria a alguém que brincava para sentir-se bem, fizera uma troca justa. As vozes em sua cabeça não a deixavam dormir. Se voltasse atrás, conseguiria descansar? Deitou-se atordoada e custou a sonhar.
Sonhar? Já não sonhava mais. Suas lágrimas, já secas, se empoeiravam rolando a sua face. Lamentava cada vez mais. Alguém a tiraria do limbo em que se afogava? Claro que sim. Mas, por este, queria mesmo ser resgatada? Não queria mais pensar nisso, não precisava mais. A solução era arrumar algo para fazer, ocupar-se, distrair-se. Contar as estrelas se fosse preciso. Levar a eternidade, acabar com essa maldita ansiedade!
Determinada a esquecer, resolveu agir. Olhou a sua volta: as papeis jogados sobre a escrivaninha, pratos sujos na pia, migalhas sobre a mesa, móveis empoeirados, chão sujo. Era uma bagunça total. Pegou suas luvas, a vassoura e os produtos de limpeza. Seria um trabalho árduo. Preferiu começar pela louça. Lavou prato por prato, calmamente. Não pensava em mais nada além da sujeirinha que não tirara completamente, ou do prato mal enxugado.
Em seguida, organizou sua escrivaninha. Os papeis inúteis jogou fora. Por entre os que ficaram, encontrou um pequeno bilhete: ‘como posso te convencer? O que sinto é verdadeiro. ’ Paralisou por um instante. Memórias voltam repentinamente. Sente seu cheiro, o seu toque. Estremece e pensamentos tornam-se verbalizados. Lamentável, sussurra. Tira o pó, coloca em tudo em ordem. Está na hora de dar um passo a frente.
Parte para o chão. Varre cuidadosamente, cantarolando para se esquecer. A sala fica impecável. O próximo passo foi o chão da cozinha. O chão era de lajotas claras, e quando sujo não se enxergava nada além da espessa sujeira. Ajoelhou-se e começou a esfregar. Por entre as pausas, acabava por pensar. Pensava nele, na falta que fazia. Pensava também no outro, no sorriso que para ela ele abria. O que fazer era difícil de decidir. Queria tê-lo de volta, mas para isso acabaria magoando o outro. Não queria vê-lo sofrer.
Além disso, nem tinha certeza se seria aceita de volta. Estava diante de uma bifurcação, com destinos incertos. Já conseguia enxergar por detrás da sujeira. Olhou para os lados, tudo limpo, tudo tão mais claro, tudo mais leve. De repente, teve a solução de que precisava. Sem hesitar foi ao quarto, separou o necessário por algum tempo. Fechou toda a casa. Ao fechar a porta, olha para os lados, sentindo-se estranha. Ao sair em definitivo, olha para trás e suspira profundamente. Estava fazendo um atalho para, talvez, chegar a algum dos destinos. Ou, então, para criar o seu próprio. Mas isso o tempo determina.
domingo, 10 de junho de 2012
A fuga para um sonho, o final de mais um de seus contos
Seus dedos enrijecidos pairavam sobre o teclado. Não sabia o que escrever, sobre o que escrever. Suas dúvidas o cercavam, já não se tinha certeza de mais nada. O sol não o esquentava, o silêncio o inquietava, queria não querer. Tantos dilemas, tantas perguntas, nenhuma resposta, nenhuma luz para guiá-lo. Seus papeis permaneciam jogados pela mesa, assim todo o resto se mostrava numa organização caótica. Não tinha namorada, não precisava de uma, embora muitas o desejassem. Sua cabeça latejava, a luz irritava seus olhos. Queria gritar, mas silenciar-se no volume de suas palavras. O que ele iria levar no final da sua estrada, quando tudo se acabasse? Do que iria se lembrar? O que valeria a pena no final? Realmente se lembraria de algo? Não tinha com quem conversar, se afastou de seus melhores amigos. A única pessoa que o ouviria não estava em condições, tinha seus próprios problemas para resolver. Às vezes, ele mesmo se pergunta como pode chegar a tal ponto. Por que não o impediram antes? Para essa pergunta ele tem a resposta: não podia ser impedido, se tivesse algo a aprender teria de ser feito por si mesmo. Não saberia se levantar se outrora não tivesse caído. Há algumas coisas que se devem ser vividas, e é impossível impedi-las. E lá estava ele, sozinho. No entanto, havia alguém que nunca o abandonara. Ironia era estar sozinho estando acompanhado. Lembrava-se dela nitidamente. Sentia seu cheiro, sentia seu toque quente sobre suas mãos enregeladas. Via o seu olhar meigo, seu sorriso mordaz. Tinha-a em sua frente. Passou os dedos por entre as madeixas, sentindo a maciez de seus cachos em meio ao cabelo liso. Olhou-a nos olhos, afogando-se nas profundezas de um olhar magnético puramente verde. Havia algo de diferente, podia ver e sentir. Seu olhar era frio, seu toque, que outrora o esquentava, agora gelava seus dedos suavemente. Seu cheiro era diferente. O perfume de chocolate e frutas vermelhas não se sentia mais do pescoço dela. Por entre seus dedos havia um toco de cigarro. Dissera a ela que a essência se perdia misturada ao do tabaco. Ela lhe fora indiferente. Dissera-lhe palavras que preferiu esquecer, agiu como se tivesse sido abduzida, afinal aquela criatura não era quem ele conhecia como tantos contos que escrevera. Magoado, afastou-se. Esqueceu-se de tudo e todos à sua volta. O mundo girava, agora, só para si mesmo e para mais ninguém. Criou uma barreira impenetrável. Esqueceu-se até de quem era. Seus contos já não faziam mais sentido. Quem era ele? Ele poderia ser qualquer um. Ora um herói, ora o vilão. Quem ele realmente era? Era um tolo, não, fora um tolo. Agora ressurgia do chão, caído, mas tão mais forte. Seus olhos no espelho refletiam um oceano azul, calmo, mas imprevisível. Agora este era ele. Então, que ele iria levar no final da sua estrada, quando tudo se acabasse? Todas as oportunidades que um dia perdera. Do que iria se lembrar? De todas as ironias a ele dirigidas, de todas as demonstrações de carinho e desprezo. De tudo pelo que passara. O que valeria a pena no final? O arrependimento, a raiva, as alegrias e as realizações. Realmente se lembraria de algo? Nunca se esqueceria. Não se esqueceria de todas as transformações, de cada olhar, de cada toque. De tudo que um dia escrevera. Afinal, agora sabia quem ele era e não se importava se tudo se acabasse ali. Seria seu final mais perfeito, o fim de mais um de seus contos.
quarta-feira, 6 de junho de 2012
A dúvida que o silêncio cala
Sua voz saía suave e seu sorriso era agradável. Não reconhecia mais os olhos inflamados de raiva que vira da última vez. Voltara a ser ela. Mesmo que por um instante, ele a reconhecia. Fora bem tratado, portanto, assim retribuía. Queria tocar o seu braço, como antes fazia, mas receava um desentendimento. Apenas a observou partir. Até mesmo sem a encarar, sentia a calma que dela emanava, sempre com o seu costumeiro ar de superioridade. Não a via assim desde seu reencontro. O que aconteceu para estarem tão distantes? E por que se sentiram tão conectados naquele instante? Aproximaram-se sem relutância. Ela sentia falta, mas não demonstrava. Ele era, por vezes, grosseiro. Não sabia disfarçar, mas não se renderia, seu orgulho era muito superior a isso. Ele desejava saber o que se passava, o que ela sentia e pensava, mas era impossível. Pensava nela a cada ironia, a cada olhar que lhe era dirigido. Já começava a atrapalhar. Talvez por esse motivo, talvez não, seu humor amanhecia já amargo. Suas palavras chegavam afiadas. E ela só piorava a situação. “Quem desdenha quer comprar…” dissera uma vez a ela. “Imagina então, quero muito te comprar!” esvaindo em gargalhadas, a fala ecoa. Ela dizia querendo dizer e ele sabia da verdadeira intenção. Ficaria feliz se assim fosse. Não diria o mesmo em atuais circunstâncias. Já não permite tanta aproximação, mantém-na longe. E ela, com muito grado, faz. Quando seus olhares se encontram, ela curva seus lábios, imperceptivelmente, num sorriso debochado em resposta a seu olhar indiferente. Era como se seus sorrisos, suas ironias, e até mesmo suas decepções, dissessem: ‘eu sei que te fiz bem, pelo menos um dia. Importei-me contigo, estive ao teu lado. E como o ditado diz: nada que é bom dura para sempre. Errei ao acabar dessa maneira. Não me preocupo de continuar nesta condição. Só não me olhe como se nunca tivesse sorrido para mim, ou por minha causa!’ Enfim, seus olhares diziam tudo que suas palavras não verbalizavam. E ainda continuavam misteriosos. Intransponíveis. Mas agora, o calor vinha do seu olhar travesso e provocante, do sorriso radiante, uma combinação que o arrepiava por inteiro. Ela, naquele instante, era a que conhecera, e não a que se tornara depois. Ela era quem o fazia sorrir. E ela o fez sorrir quando partiu.
domingo, 3 de junho de 2012
Contigo ao meu lado, sei no que acreditar
O que seria isso que nunca sentira antes? Antes, era tudo tão simplório, agia indiferentemente. Mas agora algo mudou. E era possível, claramente, perceber. “E se…” “E se nada, garoto. Não coloque ideias nesta cabecinha, se sabes que não terás retorno.” Ela era fria demais, mesmo não sendo. “Tu estás diferente”, um dia ele lhe dissera. Realmente, ela estava diferente. Algo, no seu âmago, indicara isso. O que tanto reprimia acabara por transbordar. “Imaginação. Estou mais sorridente, se é isso que me dizes.” Ele a encarava, e por vezes sorria. Um mistério para ele, a mais pura lógica para ela. Estaria ele tentando ignorar? O que estaria buscando? Uma confirmação verdadeira, incontestável. Devia ela, agora, provar-lhe. “Não sabia que gostava de mim… Não assim, pelo menos.” Ele a provocava como o gato que brinca com o novelo antes de desenrolá-lo. “Nunca disse o contrário.” “E por que não me disseste nas vezes que te perguntei?” “Não encontrava palavras para dizê-lo.” Assim se silenciavam. “Por favor, não me entenda errado.” ela suplicava. Sem dizer, ele apenas sorria-lhe. As horas passavam, e se arrastavam quando estavam juntos. “Acho incrível como as pessoas mudam quando estão com outras, não é?” ela, indiferente, comentava. “Por que dizes isso?” Desvencilhando-se do abraço que a envolvia, olha-o com os olhos de pura malícia. “Foi só um comentário, não precisa te acanhar.” Beijando a sua bochecha, ela recosta a face sobre seu ombro. Ele pode ser o gato às vezes, mas nunca deixará de ser o seu novelo. Inquieto, ele tamborilava seus dedos na perna dela. “Eu sei que mudo quando estou com outras pessoas.” ele disse. “Nem te preocupes com o meu comentário. Isso é natural. Entendo que o jeito que tu ages comigo é diferente do jeito que tu ages com o teu melhor amigo, ou melhor amiga.” Ele sentiu uma pontada quando ela dissera ‘melhor amiga’, mas não sabia explicar o que era. Mas no fim, acabou entendendo. “Estás com ciúme de alguém?” “Eu?” perguntou ela, rindo timidamente. Ele nada disse, apenas esperou por resposta. Persistindo o silêncio, ela resolveu se pronunciar. “Ok, estou com ciúme sim. Sei que há tempos ela é a tua amiga. Melhor amiga. Vocês estão sempre juntos, e agora que percebi que gosto de ti, sinto medo de perder-te.” “Não precisas te preocupar com isso, anjo. Somos só amigos, e, além disso, não faço o tipo dela.” Ele beijou-a de leve, vendo-a enrubescer. “Estou contigo e só contigo.” “Fazer o quê? Sinto saudade, sinto ciúme, já não posso mais controlar.” Dizia ela, envergonhada. “Não sabia que tu sentias ciúme, parecia tão indiferente quanto a isso…” “Não costumo sentir, e é quando eu sinto que me preocupo.” “Terei de me certificar de que não sintas…” Ele disse, beijando-a outra vez. “Minha menina ciumenta, não quero que essa ideia atormente-a novamente. Não suportarei ver esta tua boca curvar-se por essa preocupação infundada, ouviu-me?” Sem responder-lhe, ela acena a cabeça. “Então, assim serei teu, e tu serás minha!” Suas mãos se encaixaram, e a segurança de se terem tomou-lhes calmamente.
terça-feira, 29 de maio de 2012
Tão diferentes para um mesmo destino
sábado, 26 de maio de 2012
Nos meus sonhos
Chegou em casa, largou suas coisas por cima da cama. Estava cansado, mas o sorriso estampado em seu rosto o fazia esquecer. Por que estivera, ultimamente, tão animado? Faminto, passara a manhã inteira de jejum. Comeu algumas frutas que encontrou pela frente, e não parava de pensar sobre. Seria perigoso levar à diante? Demais. Conseguiria controlar-se? Impossível. Precisava de uma solução. Estava, aos poucos, entregando-se ao vício. O telefone permanecia sobre a mesa. Esperava receber uma ligação, mas sabia que não receberia. Procurou algo para se ocupar. Não encontrava mais nada. Resolvera organizar os papéis que tinha jogado aos cantos. Quantas memórias aquelas folhas traziam... A saudade apertava o seu peito. Por fim, encontrara o papel que mais lhe prendeu a atenção. Era uma carta dela. Suas palavras, tão doces, o emocionava. Queria tê-la por perto. Precisava dela. Será que ela também precisava? Enquanto lia as muitas linhas que lhe foram destinadas, algumas lágrimas rolavam pela face. Seriam lágrimas de tristeza? Certamente não. Seriam de saudade, de desejo. As suas cartas, os seus bilhetes eram intrigantes. Ela, e só ela, tinha a habilidade de envolver o leitor. Resolvera ligar. Seu coração palpitava, emocionado, enquanto aguardava resposta. Finalmente, ouve-se o 'alô'. O que dizer? "Sabe, tenho identificador de chamadas, e sei bem que é... Afinal, ia ligar-te. Já estava com saudade." a voz meiga dizia-lhe. "Por que hesitou, então?" perguntou-a. "Estive ocupada, desculpe. Não pense que me esqueci. Ao contrário! Lembro-me a cada instante!" Ouvir tais palavras o confortou. Talvez ela realmente precisasse dele. "Ligou-me para ouvir a minha voz? Que romântico! Apaixono-me mais e mais!" disse, soltando uma risada melódica. "Liguei para dizer que já não penso em mais nada..." sussurrou-lhe, em resposta. "Confesso que nem eu. Passo o dia pensando em nós, em como queria estar ao teu lado. Nos nossos encontros, sussurro às estrelas, peço que te façam ficar por mais um tempo." Fez-se silêncio. Ela, então, retomou: "Eu tenho rido mais, sabia? Tenho estado menos estressada... E todos perguntam pelo motivo de minha euforia. Não os respondo, já não é da conta deles...”. Conversaram por mais um pouco, mas eles tiveram de desligar. As palavras da moça ficaram ecoando em sua mente, a euforia crescia dentro de si. Já não havia mais motivo para deixar de pensar nela. À noite, quando ia deitar-se, pensou nos belos olhos castanhos, no sorriso travesso, nas curvas harmônicas, na voz suave que o fazia delirar. Pensou nela e sussurrou "Eu te amo". Em resposta, a moça visitou os seus sonhos.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Em meio às nossas ausências, amo-te.
O sorriso iluminava os seus olhos. Ela, com o seu jeitinho mais irônico, encarava-me inocentemente maliciosa. Mas ambos estávamos ali, podíamos sentir. “Pergunte-me agora como sinto e não te responderei com palavras.” murmurou ela. “As palavras se fazem vazias quando dirigidas a ti.” em resposta eu dizia-lhe. E por algum tempo, as tardes se resumiam a isso, somente pela presença agradabilíssima daquela mulher tão gloriosa. Ríamos, conversávamos. Via que minha presença era tão deleitosa quanto a dela me era. Mas havia algo diferente, algo de extrema importância, imperceptivelmente agonizante. Perguntava-lhe o que havia, mas com uma resposta seca e ríspida, calava-me de imediato. A ironia intrínseca tornava-a a mais divina dos anjos. Cansado de preocupar-me à toa com esta mulher, passei a encontrá-la com pouca frequência. “Abandonaste-me, Miguel?” perguntou-me ela, assim que me viu aproximar. Não há palavras que expliquem, ou que ao menos tentem, o que se passara na minha cabeça. Talvez uma única expresse vagamente: indignação. “Talvez, Lorena.” “Ué, mas o que eu te fiz de tão grave? A ponto de privar-me da tua companhia? Esta é a pior das piores punições a mim já dadas!” Apesar da fala, sentia no olhar inquieto as mentiras em mim despejadas. “Diga-me o que eu te fiz! Para merecer essa tua atuação, essas palavras frias e insignificantes. Diga-me, eu pedirei perdão. E então pare, não precisarás mais fingir.” Lorena desviava o olhar, distante. De sua boca nada saía. “Digo-te que as tuas palavras foram cruéis. Mas não me é surpresa, estou acostumada há um tempo.” “Apenas responda-me, Lorena. Não sejas evasiva!” “Então deixe de ser um tolo e preste atenção ao teu redor, Miguel. Veja a harmonia da natureza. Cada elemento se complementa. E assim, formam um todo.” “Dizes, então, que não nos complementamos?” “Deixa de tolice, já te disse!” “Não entendo. Não posso assumir como motivo da tua frieza…” “Deixe-me terminar, então. Enfim, para um todo há a combinação da beleza única de cada. E antes que me interrompa, já que não posso ser poética, vou direto ao ponto: as minhas tardes faziam-se apenas da tua agradável companhia. Mas tu te tornaste um vício para mim, um vício que sustentava com prazer. E então, as tardes faziam-se do teu sorriso para o meu. Desculpe-me se lhe fui grosseira, ou fria, como disseste, mas não consegui sustentar este vício…” “Ainda não te entendo, mulher…” “No início, não me achava digna de qualquer sentimento por ti. Ao te comparar, comparo-te com um anjo, o meu anjo. Algo tão puro não deveria ser desviado do seu caminho divino.” “Esquece dessas insignificâncias…” já sentia cada célula do meu corpo clamando pelo seu calor. Perdoara aquela mulher que me provoca enlouquecidamente, que me tem preso aos seus pés, e vi suas asas ressurgirem de algum ponto além da escuridão dos seus caprichos. “Falta pouco, agora! Deixe-me terminar!” Lancei um sorriso tímido, e derreti-me quando retribuído tão calorosamente. “Enfim, imaginei que me evitaria, mas nunca deixei de vir aqui, onde sempre nos encontrávamos, na esperança de encontrar-te. Agora, admito, mesmo não digna, necessito. A tua luz é a única que me brilha, Miguel. O meu pensamento sempre está em teu. Já não posso ausentar-me e a melancolia me toma por inteira. Portanto, peço-lhe que me perdoe por tudo que te fiz que um dia te magoou, nunca foi a minha intenção! Se fores capaz de me perdoar, peço-lhe que me aceite para passar o resto dos meus dias ao teu lado!” Este último pedido me comoveu. Como podia recusar, vindo da mulher mais bela, da mulher que realmente amo? “Sejas, então, minha e só minha!”
segunda-feira, 14 de maio de 2012
Muito além do desejo
O que estamos fazendo? Pelos Céus, isso está certo? Sorrio para ti, e o mesmo não se repete. O que houve para, de repente, estarmos tão pertos, e, no entanto, tão distantes? Essa, alguma vez, foi a nossa questão? Lucas estava atordoado, simplesmente não entendia. O sorriso, o olhar, todo o ser dela o seduzia, num fervor incessante. E, agora, não parava de se perguntar. O que se passa na nossa cabeça para desejarmos aquilo que tivemos e perdemos? Essa insistência é apenas desejo, ou nada menos do que paixão? Por que paixão, e não amor? Pudera amar alguém que o fez sangrar? Que o fez engolir o orgulho e realmente admitir que era com quem queria estar? E depois de tudo, some? São essas particularidades que o enlouquecem. ‘Por que me deixou esperando?’ perguntava ele a ela. ‘O que realmente queremos, e pelo que lutamos, sempre tem o seu valor. Se fosse algo fácil, tão simplório, será que tu saberias dar o devido valor?’ Lucas ficava silencioso, com a cabeça recostada no colo dela. Ela parecia olhar para algo que estava muito além do seu entendimento, enquanto acariciava e enrolava seus cachos de cabelo. ‘Por favor, não faças mais isso. Se fizeres, acho que morro!’ dizia ele. Diana paralisou por um instante. Seu olhar, sempre distante, encontrou o de Lucas. Calma e suavemente, ela dizia: ‘Não digas isso! Jamais! Por que morreria? Besteira!’ ‘Ora, por que. Por amor, óbvio. ’ ‘Tolo… Como se morre por amor? E se tu amas mais de uma vez? Se tu confundes o amor com qualquer outro sentimento? Vais morrer quantas vezes, então?’ sorria para ele. Lucas nada falava, aquela garota o colocava num transe de pensamentos. ‘Sabe, Lucas, não quero que tu sejas dependente de mim. Não faço o tipo grudenta. Gosto de ti, gosto de estar contigo. Mas eu tenho o meu espaço, assim como tu tens, e em hipótese alguma invadirei o teu, peço que não invada o meu. ’ Ele se preparava para contrapor, mas, tão somente com um olhar, Diana o impediu. ‘Não sou adepta ao sentimentalismo, mas isso não quer dizer que eu não sinta. Sinto até mais do que muitos românticos por aí… ’ ‘Mas, sinceramente, não parece. Não te vejo, nunca te vi demonstrar os teus sentimentos. ’ ‘Se eu não despejo para fora quer dizer que eu mantenho tudo aqui dentro, não é?’ Diana pressionou o peito de Lucas. ‘Imagina a confusão. ’ Lucas levantou-se para encarar Diana. ‘Não me faça a vilã, por favor.’ ‘Eu só não entendo. Por que acumula tudo? Por que estamos aqui, então?’ ‘Eu preciso do controle da minha situação, só isso.’ ‘Não podes ceder por uma vez?’ Diana, abatida, desviou o olhar, e Lucas, angustiado, levantou-se. ‘Quando te permitir ceder o controle, por ao menos uma vez, quem sabe…’ ‘As tuas palavras não fazem sentido.’ Ele, aos poucos, se afastou. ‘Mas eu te entendo, Lucas. E agora, que fique bem claro que foste tu quem partiu!’ E assim, as palavras de Diana ecoam em seus pensamentos a todo instante.
sábado, 12 de maio de 2012
Relato de um jornalista desanimado
quinta-feira, 3 de maio de 2012
O meu sorriso a ti pertencerá
‘Os meus olhos já refletem o teu olhar. Diga-me, como consegues me prender assim? Fazes alguma bruxaria? Ou é apenas o teu brilho que me conquista? Vicia-me, tão suave e tão calmamente, neste teu sorriso. Agora um pôr-do-sol raia no meu horizonte. ’ Há quem diga que esta menina não é capaz de se sentir assim, afinal ela é fria e sem sentimento. Mas esses não conhecem a menina sobre quem falam. Ela é irônica e levemente adocicada. Importa-se com quem prova que merece algum reconhecimento, aqueles que ela, sem hesitar, defenderia arduamente. Por quem ela não desistiria. E por aqueles que a acompanham há tempo, ela iria ao Inferno pelo o que precisassem. Afinal, não são todos que se acostumam com ela. Por ser tão, em algumas situações, sensível, aprendeu a se proteger daqueles que costumam se aproveitar. É fria, não há como negar. Mas agora sabe separar as coisas. “Digam o que quiserem.” “Só te importas com o teu próprio umbigo, com o teu próprio mundo, não é?” perguntaram-lhe uma vez. A menina respirou bem fundo, cansara de responder esta mesma pergunta várias vezes. “ Não é mais fácil? Menos estressante?” “Acho que eu ficaria louco se fosse. Eu posso não ser o mais pensante, mas às vezes me enlouqueço.” “Veja dessa perspectiva, então: o meu pequeno mundinho é território conhecido, mais do que conhecido, eu diria. Sei cada coisa que agrada e o que desagrada, no caso, a mim. Então por que eu iria me arriscar em território desconhecido? Quanto mais eu sei, mais eu posso.” “Não achas que isso cansa? Conhecer o conhecido dia após dia? A emoção está em se aventurar pelo desconhecido.” Ela nunca teve conversas assim com ninguém, estava surpresa quanto à ousadia do garoto em abordá-la daquela forma. “E se não gostarmos do que descobrirmos?” “Aprenderemos, então, a lidar com isso. Tornaremos isso positivo. Vamos, tu não deves ser tão assim como dizem…” “Assim como?” “Tão fria, insensível… Eu sei que este é apenas o teu escudo. Que o teu mundo é diferente.” “E qual é o problema se não for?” “Seria tão somente decepcionante.” “Não sei qual é o objetivo desta conversa, mas acho que já bastou.” “ Seja o motivo dos sorrisos de alguém, e permita que este alguém seja o teu motivo.” E, então, o garoto partiu. Nunca ninguém a instigou assim. E que diferença fazia? Com ou sem aquela conversa, ela já sabia a quem o seu sorriso pertencia.
sexta-feira, 27 de abril de 2012
A minha estrela mais brilhante
O que for, que seja o meu vício.
Mas um vício que não me vicie.
Que eu seja dependente do sorriso teu,
Mas que eu possa viver com tão somente o meu.
Que o teu boa noite venha para confortar as minhas noites de sono,
Mas que a tua ausência seja suficiente para me guiar em bons sonhos.
Que a tua noite se transforme no meu dia,
E que o teu silêncio que me suaviza faça do barulho aquilo que te tranquiliza.
Enquanto dormes, tranquilo,
Vou aos poucos tentando te encontrar.
E até lá, se eu não conseguir,
Creio que algum sinal venha para me encaminhar.
Calma, agora, prometo não desistir.
Tudo que me disseres vou ouvir!
A tua estrela lá no céu brilha, intensamente.
No fim, é juntos que vamos estar,
Assim se me esperar.
Mesmo que não dure para sempre, será eternamente!
sábado, 14 de abril de 2012
No silêncio das palavras
E quantos ais ainda suspiro
Desde que parti?
E quantas vezes na cama me reviro
Pensando em ti?
Da menina esqueceu
E aos tristes suspiros se rendeu
Tão distante esse olhar
Que no espelho vê se apagar
Estaremos juntos daqui para frente
Quem sabe, num futuro intermitente.
Mas um dia espero teus olhos fechar
Para, num sussurro, uma boa noite te desejar.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Moinhos de Sangue: Capítulo final reescrito
Esta postagem só entenderá quem leu o livro Moinhos de Sangue, de Ana Cristina Klein. A nova versão do final foi elaborada, numa proposta pelo professor de Português/ Literatura, por grupos. Segue, então, a nova versão da nova versão do final do livro! Hehehe.
A brisa de Xangri-lá era tão mais pacífica do que a de Porto Alegre. As crianças brincavam na piscina, enquanto a mãe, Maria Beatriz Tognazzi Aranha Gomes, apreciava o solzinho gostoso para garantir o bronzeado perfeito. Angelina parecia como a mãe, mas não sem a beleza gritante e a personalidade de Bia. Já o Pedro parecia-se com o pai, até nos trejeitos.
- Mamãe, mamãe! – as crianças não se aquietavam um segundo. Bia estava começando a se cansar desta rotina de mãe. Na verdade, só engravidara para poder gozar dos benefícios de Victor Ávila, seu dinheiro, mais precisamente. Precisava de férias das crianças. Férias com estilo, em New York!
- Papai chegou! Papai chegou!
Victor parecia estressado, mas as crianças pareciam lhe acalmar. Ao ver Bia, ele já abre um sorriso de orelha à orelha. Sempre fora apaixonado por Bia, desde que ficara viúvo. Mas ele não conhecia a verdadeira Bia. A mulher com quem ele estava casado era uma máscara de várias camadas. O triste era ele ser apaixonado por ela, e ela só sentir atração, não gostar de Victor.
- Como estavam os negócios em Porto, amor? – Bia não se interessava pelos assuntos da empresa do marido, nem por qualquer outra coisa, somente para o dinheiro e sua presença marcada nas colunas sociais. Obviamente, ela ainda estava no topo de tudo, e em todas as bocas, benditas e malditas.
- Já tivemos dias melhores. As coisas estão por um fio, mas tenho certeza de que podemos recuperar!
- Tudo se ajeita, meu querido, não te preocupes. Enfim, precisava notificar-te: vou ir à New York, tenho negócios a resolver para a empresa. Será que tem algum problema?
- Claro que não! Podes ficar tranquila! Mas, e quanto às crianças?
- Estive pensando sobre… Preciso que tome conta delas. Ou contrate uma daquelas coitadas que gostam de cuidar dos ranhentos.
- Darei um jeito. Pode ir, não te preocupe com os pequenos!
- Dará conta, mesmo? Cuidar da Angelina e do Pedro dá trabalho…
- Não te preocupes comigo também. Pode ir sem problema!
- Perfeito, então. Vou aprontar as malas.
Um marido cego pela paixão, que não consegue nem perceber suas mentiras. Pudera desejar perfeição maior? Maravilha. Suas férias em New York prometem! Novas bolsas, novos vestidos, tudo de grife, e ainda: tudo verdadeiro! Bia sentia falta de suas apostas com Soninha, sentia falta de ganhar presentes dela. Mas, se a Soninha fosse mais centrada e não se metesse no que não era chamada, ainda apostariam bobagens. Pena que ela obrigou-a a ameaçá-la com aquelas fotos comprometedoras, caso contrário até a convidaria para ir à New York…
Chegando a New York, a primeira coisa que fez foi visitar Peter. Mesmo sendo um tanto constrangedor, ele era ainda um ótimo amigo. Ajudou-a, com o seu refinado gosto, a escolher lindas bolsas e vestidos. Mas um desastre acontecera. Seu cartão de crédito estava bloqueado, teria que ver qual era o problema. E lá rumaram Bia e Peter à agência, rebaixavam-se à ralé que lá frequentava. Aqueles gerentes sempre se achavam mais do que eram. O problema do cartão é que Bia havia estourado o limite. Teria de ligar para Victor e contar o desaforo pelo qual passara. Mas Victor lhe dera a pior de todas as notícias: eles estavam sem dinheiro, a empresa falira e ela teria de voltar urgentemente.
Bia desesperou-se, não sabia mais o que fazer. Nunca passara por isso antes. A única solução que encontrara foi arranjar um amante, e usar o seu poder de manipulação para conseguir voltar ao topo novamente. Faria em New York, mesmo. Com o corpo bem cuidado, apesar da idade, e a beleza que nunca lhe abandonava seria fácil como tirar doce de crianças. E ainda mais prazeroso do que matar as suas vítimas. Com todos estes fatores a seu favor, sempre conseguia o melhor. Na verdade, ela já era o melhor, os outros apenas tinham sorte.
Tendo bom gosto em suas escolhas, acabara por conquistar um rico bilionário, alto, louro e de olhos castanho aveludados. Um corpo de atleta, parecia ter jeito pra coisa. Se não desse conta do sexo, daria conta de suas dívidas financeiras. Enfim, seria, de algum modo, útil para Bia. David, como se chamava, provocava estranhas sensações em Bia. Tesão, obviamente, era a sensação mais gritante. Mas olhar em seus olhos parecia ser algo proibido. Ele tinha o mistério como aspecto natural. Depois de uma noite enlouquecedora, Bia percebe que acertou na escolha! Bom em todos os aspectos, na verdade, ótimo! Deitados na cama, David joga-a para cima de sim, segurando seu pulso firmemente. Bia olhou em seus olhos e sentiu medo.
- Está tudo muito bom para ser verdade, acho melhor darmos uma pausa. – disse Bia, tensa.
David nada respondeu, apenas sorriu-lhe e o seu sorriso disse tudo. Foi assim que Bia arrependeu-se por ter deixado marido e filhos, por estar ali naquela cama de motel, tudo por um cartão sem limite, por uma empresa falida, por não estar no topo desta vez. Seu marido enfrentaria a viuvez de novo, e seus filhos ficariam órfãos. Passaria pelo que fez Denise, Marina e Ualdisnei passarem. Ali seria o seu fim.
domingo, 8 de abril de 2012
Tempo para desabafar
E esta foi a declaração de uma menina apaixonada e arrependida, para depois encontrar o sujeito pra quem escrevera e sussurrar-lhe um mísero Bom dia.
quinta-feira, 5 de abril de 2012
Adormecer para te encontrar
"Everybody knows that I'm rightfully yours (...)
sábado, 31 de março de 2012
Meu último adeus
quarta-feira, 28 de março de 2012
Um novo amanhecer, um novo dia, uma nova vida
quinta-feira, 22 de março de 2012
Meu final para minha história
domingo, 11 de março de 2012
Canção perfeita de ninar
Assim que o sol surgia, ele despertava. O que mais poderia esperar? Nada além de um bom dia. Sorria ao lembrar-se dela. Lembrava-se dela ao sorrir. Seria tão difícil assim seguir em frente? Mesmo incompleto, devia tentar. Se a saudade o atormentava, ela aparecia para lhe acalmar. Só de olhar para ela, sentir sua pele macia… Perdido em devaneios, desperta para sua realidade. O ar gélido bate em seu corpo exposto. Mais um dia se passara. Outro se aproximava. Já superara a fase de se culpar pelo que aconteceu. Nessa época, passava seus dias de sol adormecido, protegido pela escuridão do seu quarto. Despertava tão somente quando o sol se punha. Mas, agora recuperado, aproveitava cada segundo de sol, mantinha-se ocupado, para não pensar demais. Sozinho, em sua casa, ouvia atentamente cada ruído produzido pelo silêncio. Não costumava receber visitas, não depois do incidente. Acostumara-se a viver sozinho, atormentado pela solidão. A única companhia que se permitia era a das belas flores espalhadas pela casa, e do belo jardim, que sua amada dedicava-se tanto a manter. Agora, a responsabilidade de cuidar do jardim passou para ele. Sentia prazer em fazê-lo, pois se lembrava a todo instante dela conversando com as flores. “Essa é a minha favorita, chama-se Lírio. Veja, veja, não é bela?” ela dizia, animada. “Não tão mais bela do que a dona que cuida dela”, disse ele aproximando-se dela, “Mas devo admitir que é linda”. Ela retribuiu o elogio com um lindo sorriso, valorizando ainda mais a sua beleza. Mas eram lembranças, apenas lembranças. O sol, aos poucos, desaparecia, dando lugar a um belo crepúsculo. Já não havia mais nada para fazer, pensou em se recolher. Mas, antes que o fizesse, ouvira um ruído intrigante. Ouvira uma gargalhada, leve e suave. Era ela. Ele, quase desesperado, seguia o som por entre as árvores. Procurava-a, mas não a encontrava. Sem conseguir evitar, chega ao topo de um penhasco. Do mesmo penhasco que por vezes eles haviam se encontrado. Do mesmo penhasco que levou sua amada pra longe. “Afaste-se da beirada, por favor”. Num sobressalto, ele vai de encontro a ela. “Não faça nenhuma tolice”, dizia ela. Ele, sem saber o que dizer, apenas aproximou-se da beirada. “Já não tenho mais motivos para continuar vivendo.” “Não irá resolver nada, você sabe disso.” “Não há o que me convença disso.” Ela, aproximando-se dele, estende-lhe a mão. “Então faremos isso juntos.” “Não, você já passou por isso uma vez. Não vou fazer dessa a segunda.” Ainda assim, ela insistiu: “Por favor. Estamos juntos. E se permitir, ficaremos para sempre. Só assim descansarei.” Ele, então, toma a mão de sua amada. “Para todo o sempre, para sempre juntos. Simples assim.” E então, de mãos dadas, pulam do penhasco, para viver mais a eternidade juntos.“Those were the times,Your love was so good.”( Your love – Keane)
sábado, 10 de março de 2012
Desejo
A Lua se encontrava em seu ponto mais alto, no céu. Olhar pra ela lhe fazia refletir. Estaria pensando demais, e agindo de menos? Ou seria ao contrário? Precisava de respostas, mas estas teriam de ser encontradas por ele próprio. Já era tarde, um minuto a mais e se atrasaria. Pegou o seu casaco e saiu, sem ao menos olhar pra trás. Enquanto isso, as mesmas perguntas a intrigava. Ela buscava, assim como ele, respostas. Não as encontraria parada ali, apreciando a beleza da Lua. “Quem a colocou lá em cima, distante de tudo e de todos, agiu com muito egoísmo.”, pensou ela. Olhando por uma última vez a Lua, Helena adormece, aconchegada em sua cama. Um sono agitado, um sonho confuso. Via, em sua mente, uma face, um homem. Tinha olhos verdes, cabelo castanho e uma boca fina que se curvava num sorriso sedutor. Conhecia-o. Só não se lembrava de onde. Suas palavras saíam num tom suave e melódico. Mas, ela não conseguia entender nada. Sua visão ficava embaçada, turva, até que não enxergava mais nada. De repente, o sol invadia o seu quarto. “Bom dia”, dizia ele abrindo a cortina do quarto. O olhar, o sorriso, a voz… Lembrava-a do sonho que tivera. Mas, ao olhar para ele, para seus olhos verdes e seu sorriso sedutor, aos poucos percebia: eram memórias, apenas memórias. E agora, ali estavam, juntos. Deixaram de pensar e passaram a agir. Eram memórias de quando tudo começou.
sexta-feira, 9 de março de 2012
Para seguir em frente
quarta-feira, 7 de março de 2012
Nós queremos que tudo mude
Ele deixa de lado, então, os papeis. Sem inspiração... No que mais poderia pensar? O que mais poderia tentar? Já não havia esgotado suas opções? Sabia que dali pra frente, tudo seria diferente. Teria ele coragem de seguir? Estrutura para aguentar? Enquanto pensava, voltava aos poucos a escrever. As ideias surgiam-lhe na mente. Escrevia o que sentia... Não, sentia o que escrevia. Cada palavra, cada frase, cada parágrafo. Era só mais um capítulo, mais uma página, para no fim criar um livro inteiro. Algumas palavras permaneciam em sua mente. Magoado, claro que estava. Não esperava aquela atitude. Receoso, não se desculpava por algo que não fez. De repente, uma lembrança, a mais real de todas que podia ter. Tinha-a bem a sua frente. Quase podia senti-la. Sentia seu cheiro no ar. Mas, ainda assim, não conseguia se aproximar. “Engraçado quando a gente não consegue retomar ao que éramos antes. Engraçado esse clima que fica entre a gente. Que nos obriga a desviar o olhar.” dizia ela. Por mais que tentasse, não dava um passo à frente. Estava estagnado, num mesmo lugar. “Lembre-se de enfrentar os teus medos, os teus receios. Saia dessa caixa de conforto. Assuma uma posição.” seus dedos, trêmulos, escreviam no papel. Durante este conflito que criou para si mesmo, ele toma uma decisão. Assume um lado. “Mensagem enviada” exibia a notificação no celular. Tão melhor ficou que conseguiu acabar seu livro, por inteiro. Ficou mais tranquilo sabendo que poderia ver o céu por detrás das nuvens. Sabendo que seus dias ficariam menos pesados, mais bonitos e tão mais vívidos. E sua caixa de saída o entregava: “Desculpe, disse que não devia. Não há palavras que expressem o meu estado agora. Errei, e reconheço. Mais do que tudo, te admiro, isso não mudou. Então, se puder me perdoar, mesmo que não volte a ser como era antes, ficaria aliviado. Mesmo sendo ignorado, prioridade é o teu perdão. Só isso.” finalizando a mensagem; “Desculpe, de verdade.” A resposta chegou quase instantânea: “Reconhecer não é suficiente, de tão errado que estava. Mas não estou aqui para julgar. Terá o meu perdão, assim que fizer valer a pena. As palavras são muito básicas, prove que se arrependeu com atitudes.” Mas a resposta tardou a chegar. E que belo dia surge detrás das nuvens.
Pela magia de um belo dia
Não há o que questionar
Por uma simples mensagem
Por detrás da beleza do teu olhar
...
De volta pra casa
E ele lá, afogado em seu passado. Lembranças que não somem de uma hora para outra, palavras que queria tanto falar. Jamais achou que chegaria a tal ponto, que o caminho que escolhera levaria àquele triste fim. Mas lá estava, e não havia nada que pudesse fazer, senão esperar. O tempo fecha as feridas. E quanto às cicatrizes, bem, poderia disfarçá-las. Agora estava parado em frente a um elevador. Ele precisava sair dali. Subir ou descer, precisava sair. A porta do elevador abriu-se. Ele entra no elevador, precisava escolher aonde queria ir. Mas não havia andares. Só havia uma seta para subir e outra para descer. Antes que ele pudesse escolher qualquer um dos dois, um voz em sua cabeça diz: "para subir, é preciso saber perdoar. Para descer é preciso ignorar a opção que tens de subir". Ele, então, por um momento pensa. Depois de tudo que lhe acontecera, seria possível perdoar? Depois de tanto chorar, depois de tanto gritar? Seria possível perdoar aqueles que fizerem de sua vida um inferno? Já estava decidido, iria descer. Mas antes que apertasse o botão, o elevador já estava em movimento, descendo. Já vivera no inferno uma vez, qual seria o problema de voltar? Estaria, então, voltando para casa.
No final da estrada
Ela então partiu. Precisava desse tempo, necessitava pensar em si, sozinha, longe de seus próprios problemas, até. Um tempo para se reerguer, permanecer de pé. Decidiu, então, levantar a cabeça e olhar para frente. Percebeu que seus problemas não são os únicos existentes. Ficaria ali? Pensaria em voltar? Precisaria de ajuda? Não, não encontraria ali a solução. Precisava de si. Há tempos havia se esquecido de como era trabalhar com sua mente, do quão confortável eram seus problemas. Permanecer ali já não era mais uma opção. Havia dor e sofrimento em tudo que a cercava. Voltar de nada adiantaria, só a machucaria ainda mais. Tudo que é pra sempre tem um fim, foi isso que aprendera com suas quedas. Ninguém poderia ajudá-la. Agora, era olhar pra frente, limpar seus joelhos, e continuar caminhando. No final de sua estrada, ela encontrará alguém que a faça mudar seus conceitos, alguém que a faça acreditar. E é isso que lhe dá forças para continuar.
Tudo o que eu preciso
Um olhar,
Por entrelinhas
Um dia para viver.
Uma noite para sofrer.
Um dia e uma noite para aprender.
E a eternidade para passar com você.